O Museu da Chapelaria inaugura na sexta-feira uma exposição sobre o contributo do movimento operário desse setor industrial para as lutas que culminaram na revolução do 25 de Abril, em São João da Madeira e no resto do país.
Segundo revela a diretora desse equipamento cultural do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto, Tânia Reis, a mostra, patente ao público até 28 de março de 2027, reúne documentação e testemunhos que demonstram que a força operária local teve “um papel central na formação do movimento operário português entre o final do século XIX e meados do século XX”.
Propondo uma reflexão sobre o trabalho industrial na cidade que durante décadas foi a capital da produção portuguesa do chapéu, a exposição “O Movimento Operário Chapeleiro” aborda a organização coletiva das maiores empresas do setor e as lutas sociais da sua força laboral.
“A verdadeira revolução não aconteceu apenas no dia 25 de Abril – foi o resultado de pequenas lutas que depois culminaram nessa data. Lutas por direitos laborais, por melhores condições de trabalho e, consequentemente, por melhores condições de vida”, declara Tânia Reis à Lusa.
A curadora da mostra, Inês Resende, acrescenta: “O trabalho chapeleiro, exigente e altamente especializado, esteve desde cedo associado a formas de organização coletiva. Foi nesse contexto que se afirmou uma classe operária com forte consciência profissional e de classe, responsável pela criação de associações, cooperativas, estruturas sindicais e imprensa operária, e protagonista de reivindicações e conflitos que marcaram o movimento operário português do início do século XX”.
Além de testemunhos sobre a experiência concreta de quem viveu e trabalhou nessa indústria, no que se incluem relatos pessoais de trabalho infantil, a exposição “O Movimento Operário Chapeleiro” apresenta também imprensa operária da época, “documentos históricos das estruturas sindicais” do período em análise e pinturas em que o fabricante de calçado e pintor local Armando Tavares (1931-2021) retratou a realidade laboral do concelho.
Parte dos conteúdos da mostra resulta de investigação levada a cabo pela própria Inês Resende, que, natural de São João da Madeira, se formou em História precisamente devido a origens familiares ligadas à indústria operária e a uma infância marcada por relatos da experiência fabril. Foi esse contacto precoce com o mundo do trabalho e a sua herança material e imaterial que lhe despertou ainda a preferência pela recolha e valorização de testemunhos orais como os que desde cedo reteve dos seus avós e bisavós.
“São João da Madeira ocupa um lugar incontornável nesta história [do movimento operário nacional]. Enquanto capital da chapelaria portuguesa, a cidade concentrou durante décadas a maior parte da produção nacional e acolheu uma comunidade operária numerosa e participativa, pelo que essa indústria moldou profundamente o desenvolvimento socioeconómico e urbano do território, estruturando ritmos de vida, relações laborais e formas de sociabilidade”, afirma a investigadora.
Inês Resende nota ainda que, num contexto de “industrialização desigual e fortes assimetrias sociais”, os trabalhadores da chapelaria conseguiram afirmar-se como “protagonistas de greves, protestos e outras formas de mobilização coletiva”. A sua ação esteve ligada “à circulação de ideias socialistas, republicanas e libertárias, contribuindo para a construção de uma cultura política operária que ultrapassou o espaço da fábrica e se projetou no espaço público, tanto a nível local como nacional”.
Tânia Reis realça que a exposição “O Movimento Operário Chapeleiro” é assim o ponto de partida para futuras mostras sobre a investigação que está a ser desenvolvida pelo Museu sobre a história dos trabalhadores da indústria do chapéu.
“Estamos a falar de chapeleiros que se encontram nos registos da PIDE e eram de São João da Madeira. E estamos também a falar de mulheres que marcaram a trajetória de resistência feminina da chapelaria”, antecipa.
Qualquer que seja o ângulo social dessas mostras, o objetivo é idêntico: para Inês Resende, fazer “compreender o quotidiano laboral, as condições de vida, os conflitos sociais e os custos humanos associados à participação nas lutas operárias”; para Tânia Reis, “evidenciar as práticas de resistência dos chapeleiros e o contributo desses operários para a construção de um mundo do trabalho mais justo”.












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