Uma versão de “A paz”, comédia de Aristófanes escrita há quase 2.500 anos, que inclui referências às guerras de Gaza, Teerão e Kiev, estreia no sábado no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco.
A peça do Leirena Teatro, de Leiria, adaptada do texto original do dramaturgo grego, esteve agendada para 2020, mas acabou por não acontecer devido à pandemia.
“Era para ter estreado em março de 2020, no festival AMO-TEatro, na Camacha, na Madeira. Só que já a cenografia estava lá, quando de repente veio a covid-19 e não houve paz para ninguém”, recordou o diretor do Leirena, Frédéric da Cruz Pires, à agência Lusa.
Passados seis anos, “com toda a guerra que acontece no globo”, a companhia considerou “essencial voltar a pegar neste texto”.
Apesar de ter sido escrita em 421 antes de Cristo, “A paz” de Aristófanes “é super atual”, porque fala da guerra, das suas consequências e da coragem para a enfrentar.
“Já tínhamos a cenografia e a vontade de o fazer. Então, pusemos as mãos à obra, e toca a pôr a criação de pé”. Tal como em 2020, José Carlos Garcia, do Chapitô, foi novamente convidado para dirigir esta criação coletiva com um elenco de sete atores.
A adaptação da companhia de Leiria “tem o seu quê de trágico, mas parte de uma comédia”, sendo, assumidamente, “um espetáculo de intervenção”.
“Não deixamos de falar de Teerão, de Gaza, de Kiev. O foco é provocar pensamento, provocar o debate”, explicou Frédéric da Cruz Pires.
A história é a de Trigeu, “um agricultor que, cansado da guerra, arranja forma de ir até aos céus falar com os deuses e perguntar o que se passa, porque não é uma, não são duas guerras, é uma constante”.
Na versão do Leirena, “os filhos acabam por entrar nesta trama e criam uma viagem fantasiosa e teatral, que o leva a atingir a paz, para que o homem também fique em paz”.
Entre tubos de cartuchos, caixas de munições e outros e despojos de guerra, abordam-se conflitos feitos em nome da religião e de interesses económicos, mas também se equaciona o fim da guerra.
“Se houvesse paz no mundo, o que aconteceria aos grandes grupos de armamento mundial?”, interrogou o diretor da companhia, que também integra o elenco onde se destaca um ator de 80 anos.
Frédéric da Cruz Pires salienta a importância de João Moital, que interpreta Trigeu, o agricultor.
“O peso da idade faz com que a interpretação dele seja única, dá uma dimensão rara de experiência. É ele que procura a paz e, com a idade que tem, isso é simbolicamente ainda mais forte. Independentemente da idade, ele continua a acreditar que é possível mudar o mundo”.
“A paz” do Leirena Teatro é uma coprodução com o Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida, de Espanha, com o Teatro José Lúcio da Silva, Leiria, e com o Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, onde estreia no sábado, às 21:30.












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