Coimbra

Coletivo de Coimbra cria espetáculo a partir de uma agenda de uma mulher em 1998

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O recém-criado coletivo de Coimbra Estrutura Baldia estreia hoje o seu primeiro espetáculo, que cruza teatro e instalação sonora, a partir de uma agenda de uma mulher em 1998 encontrada numa loja de segunda mão.

O espetáculo “Uma Agenda por Cumprir” tem como ponto de partida uma agenda real que regista um ano de vida de uma mulher desconhecida em 1998, numa proposta que cruza o documental e a ficção e que estará em cena na Casa das Artes Bissaya Barreto entre hoje e sábado e 03 e 07 de março (com exceção das sextas-feiras), afirmou a Estrutura Baldia.

Tudo começou com a descoberta da agenda, há quatro anos, por Juliana Roseiro, a atriz que estará em cena, numa loja de segunda mão, entre um livro de agricultura e outro de direito, que surpreendeu a intérprete e Carolina Costa Andrade, que encena o espetáculo.

“Os registos que a agenda tem são incríveis. Não está lá aquilo que esperamos numa agenda. Quase que lembra um diário, mais do que lembretes”, contou à agência Lusa a encenadora, que partilha a dramaturgia do espetáculo com Juliana Roseiro.

Ao longo de um ano, há registos de idas ao Instituto Português de Oncologia, o voto no primeiro referendo pela despenalização do abordo, referências à empregada (pessoa com mais inscrições), numa agenda que tem como última inscrição, a 25 de dezembro, a constatação da solidão: “Passei o Natal só”.

“Apesar de ter mais de 200 nomes inscritos na agenda, esta mulher sofre de uma enorme solidão”, notou a encenadora.

A Estrutura Baldia procurou tentar conhecer aquela mulher – conseguiram saber que era de uma pequena aldeia do concelho de Mértola -, mas não foi possível perceber “como é que a agenda foi parar a Coimbra”, afirmou Carolina Costa Andrade.

Segundo a encenadora, o espetáculo, apesar de se debruçar sobre pedaços da vida íntima daquela mulher, não quer ser um retrato – mantendo também anónima a identidade da mulher – e procura um equilíbrio entre o material real e a criação a partir de uma história que não pertence às criadoras.

“É preciso saber onde começa a nossa voz e onde acaba a voz desta mulher. É um trabalho de muita sensibilidade e de perceção de um espaço de respeito”, para garantir que o espetáculo não se torne num “’reality show’ da vida moderna”, explicou.

Na cave da Casa das Artes, o espetáculo divide-se entre a linha dramatúrgica do ano da agenda e da viagem feita pela Estrutura Baldia em torno daquela agenda, numa proposta que se mistura entre o teatro e uma instalação sonora, num espaço cénico em que se recria a sala de estar daquela mulher.

Entre o monólogo, há chamadas telefónicas e narração, numa sonoplastia que tem sons espacializados, que poderão vir de uma cozinha ou da porta da saída da casa, apesar de o público – num espaço com lotação de 27 pessoas – estar sempre na sala, aclarou.

O “Uma Agenda por Cumprir”, com pouco mais de uma hora, é o primeiro espetáculo da Estrutura Baldia, coletivo artístico que foi criado recentemente por cerca de dez artistas de Coimbra – quase todos com menos de 30 anos.

“É um espaço que não sendo de ninguém é cultivado por muita gente”, vincou Carolina Costa Andrade, que afirma que este novo grupo pretende criar raízes na cidade, “chamando sempre artistas emergentes para trabalhar” com o coletivo.

O espetáculo, que conta com apoio da Direção-Geral das Artes, tem sonoplastia de Miguel Serrão, cenografia de Beatriz Antunes e música de Matilde de Fachada e Miguel Cordeiro.

Notícias do Centro | Lusa

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