Coimbra

Lux Records há 30 anos a contar a história da música alternativa de Coimbra

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 A Lux Records nasceu há 30 anos, pelas mãos de um enfermeiro melómano que assumiu as rédeas da editora que tem sempre as portas abertas para a música alternativa de Coimbra.

A Lux Records, que editou os seus dois primeiros CD em 1996, nasceu com um convite de António Cunha, na altura com a editora de música eletrónica Kaos Records, a Rui Ferreira, enfermeiro e locutor da Rádio Universidade de Coimbra (RUC), que passava a vida na loja de discos Fuga, de que Cunha era um dos donos.

Na altura, Rui Ferreira já estava à procura de editar um CD para assinalar os dez anos da RUC e António Cunha tinha na calha a edição do primeiro álbum de António Olaio e João Taborda e o segundo dos Tédio Boys, mas entendia que faria sentido criar uma outra chancela, com a Kaos reservada para a música de dança.

“Ele conhecia os meus gostos, por causa dos discos que eu comprava na Fuga e um dia convidou-me”, conta à agência Lusa Rui Ferreira.

Em 1996, saem os primeiros dois CD, os únicos em parceria com António Cunha, antes de Rui Ferreira assumir por inteiro o leme da Lux.

O segundo álbum dos Tédio Boys, face à falta de dinheiro para pagar o estúdio, acabou por escapar à editora.

“Fartaram-se de esperar”, lamenta Rui Ferreira, que bloqueou o número três do catálogo para o dia em que conseguisse editar a banda de Paulo Furtado e Toni Fortuna, o que acabaria por acontecer quatro anos mais tarde, com um EP.

Logo a seguir, editou o álbum de estreia dos Belle Chase Hotel, “Fossanova”, numa decisão já só sua e em que também esteve na iminência de perder o disco por falta de dinheiro.

“Tive de pedir dinheiro emprestado para pagar o disco. Depois, acabei por vender o ‘master’ à Valentim de Carvalho e esse dinheiro permitiu-me editar outros CD”, contou.

Na mesma altura, deixou também escapar uns ainda desconhecidos Silence 4, de Leiria. “Já estava preocupado com os Tédio Boys e os Belle Chase Hotel e nem sequer os chateei”, lembra-se.

Apesar de pela editora terem passado projetos como Belle Chase Hotel, Wraygunn, Legendary Tigerman, Sean Riley & The Slowriders ou Bunnyranch, a vida, do ponto de vista financeiro, “nunca foi tranquila”.

“A minha vantagem é que eu trabalhava no hospital e não dependia daquilo”, afirma.

Só em 2016 é que Rui Ferreira se dedicou completamente à música, pouco antes de abrir a loja de discos Lucky Lux, na Baixa, que “dá lucro”, ao invés da editora, sempre com a lógica de investir em novos projetos que surjam, sobretudo de Coimbra.

O gosto pela música começou cedo e deu um especial salto quando a mãe de Rui Ferreira lhe deu um rádio gravador em 1985, depois de uma telefonia que só dava onda média e curta. Teve acesso ao FM e ouviu, pela primeira vez, “O Som da Frente”, de António Sérgio, na Rádio Comercial.

“Marcou-me muito”, recorda.

Pouco depois, iria participar na rádio pirata Nova Rádio de Coimbra e ingressou na RUC, onde, já a trabalhar como enfermeiro, cumpriu trabalho comunitário por se ter recusado a cumprir o serviço militar obrigatório.

Conheceu a RUC de trás para a frente, rádio que lhe “abriu uma série de portas”, com contactos com editoras, muitas idas a concertos e oportunidade de entrevistar artistas e bandas.

“A única coisa que eu ainda não fiz na indústria musical foi ser músico”, diz. A única tentativa de aprender a tocar foi com 11 anos, mas um professor que não lhe deixava pôr as mãos no piano fê-lo desistir de aprender.

A ligação à RUC mantém-se até hoje com o programa “Cover de Bruxelas”, dedicado a versões de músicas – gosto que também está presente na própria editora, com vários discos de versões, incluindo o mais recente e aquele que assinala os 30 anos da editora.

Da autoria de John Mercy, alter ego de João Rui, o disco, intitulado “A Date With Lux”, é uma viagem pelas três décadas da editora, reinterpretando temas de vários dos projetos que lançou.

Para a escolha do que edita, Rui Ferreira diz que “não há um critério muito rígido” – apenas tem de gostar do que ouve. Mas há artistas que edita sem sequer ouvir, como é o caso de Paulo Furtado ou do guitarrista Victor Torpedo, que ainda recentemente lançou um álbum por mês, durante um ano.

Se consegue editoras com outra estrutura para as suas bandas, não pensa duas vezes.

“O Legendary Tigerman, quando editei o “Naked Blues”, apresentei a várias editoras e ninguém quis. Quando percebo que é uma banda com pernas para andar, tenho que fazer o que é melhor para as suas carreiras”, vinca.

Agora, dedicado inteiramente à loja e editora, Rui Ferreira já vai com mais de 150 discos lançados, a maioria de grupos de Coimbra.

“A história da música em Coimbra, especialmente da música independente, dá para se contar quase só com os discos da Lux. Não há muito mais fora do catálogo”, no que toca a bandas, notou Rui Ferreira.

“Eu acho que os músicos perceberam, ao longo dos anos, que era aqui que tinham que bater à porta”, diz Rui Ferreira.

A porta, vinca, continua aberta, não apenas para projetos associados a músicos da cena de rock de Coimbra dos anos 90, mas às gerações mais novas, que também lhe aparecem na loja.

Apesar de ser uma editora marcadamente da área do rock, não quer ficar preso num género.

“Porque não editar um disco de hip-hop? Depende da pessoa certa entrar aqui e convencer-me que o disco é bom. A porta não está fechada e se me aparecer o Kendrick Lamar de Coimbra, não vejo porque não”, conta.

Notícias do Centro | Lusa

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