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“Quase uma vida” em Leiria por Luiz Martins

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A intolerância está no cerne da mensagem de “Quase uma vida”, exposição com cerca de 50 obras de Luiz Martins, que é inaugurada no domingo em Leiria, no Banco das Artes Galeria (BAG).

Convidado há três anos para expor em Leiria, o artista plástico brasileiro teve de esperar pela trégua da pandemia para concretizar o projeto pensado para a galeria municipal instalada na antiga agência de Leiria do Banco de Portugal, um edifício com mais de 90 anos, desenhado por Ernesto Korrodi.

Nele, Luiz Martins revela o resultado da residência artística que desenvolveu durante dois meses no BAG, período em que criou a maioria das pinturas, desenhos, esculturas e instalações que compõem “Quase uma vida” – os restantes trouxe-os consigo.

Apresentada em vários espaços do antigo banco, da caixa-forte aos salões principais, a exposição explora “questões da antropologia e arqueologia do homem primitivo brasileiro e do homem contemporâneo em si”, explicou o artista plástico à agência Lusa.

Entre as obras destaca-se um exercício de sobreposição: sobre folhas de dicionário, da Bíblia ou de tabloides, “representantes do discurso dominante do branco europeu, palavras que por tantas vezes se transformaram em instrumentos de violência literal e simbólica”, aplica símbolos rupestres recolhidos em estações arqueológicas do Brasil. Sítios que o artista considera negligenciados, como a Pedra do Hingá, em Paraíba, ou São Raimundo Nonato, no Piauí.

“No Brasil, em geral, não há uma cultura de valorização desses símbolos primitivos. Por isso, eu puxo-os como ator principal dentro da minha obra. O que eu faço é neutralizar a linguagem contemporânea de jornais ou dicionários e trazer para a frente essa linguagem primitiva”, descreve.

A intenção é tornar visíveis “questões relacionadas com a intolerância”, seja ela “racial ou religiosa”, mas também a “das grandes guerras, marcos importantes na transformação da sociedade”.

Luiz Martins – que expõe na Europa há 15 anos – tenta assim levar cada visitante à reflexão:

“Claro que seria audácia da minha parte pensar que eu estaria mudando o pensamento dele. Mas acredito que, ao ter contacto com o meu trabalho, ele possa ter uma certa curiosidade de ir para casa e pesquisar, não só sobre a questão da arte e do homem primitivo, mas também quanto às questões ligadas à contemporaneidade, como a guerra, o conflito”.

Idealizada antes do início da guerra na Ucrânia, a exposição em Leiria confronta-se com a atualidade:

“Infelizmente, enquanto estado e enquanto sociedade, nós ainda não aprendemos que não é através do conflito que vamos resolver questões territoriais. É muito mais uma questão política do que civil. Espero fazer as pessoas levarem um pouco dessa consciência”.

Segundo o BAG, a exposição, com curadoria de Maria de Fátima Lambert, resulta “numa cartografia que cria uma conexão entre a cidade e o indivíduo, num território físico e afetivo”.

“Quase uma vida” inaugura no dia 18 de setembro, às 17:00, no BAG, com performance da bailarina Inesa Markava e do próprio Luiz Martins. A exposição fica patente até 22 de janeiro de 2023.

Notícias do Centro | Lusa

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