Guarda

Arqueólogos catalogam achados em Foz Côa que mostram passado histórico da região

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 Especialistas identificaram peças descobertas no concelho Foz Côa com origens geográficas que vão desde a Tunísia a vários pontos da Península Ibérica, avançou a equipa de investigadores à Lusa.

Trata-se de uma equipa de arqueólogos que juntou durante seis dias especialistas franceses e portugueses que iniciaram o estudo científico e reconstrução de parte do acervo arqueológico do Museu da Casa Grande, em Freixo de Numão, no concelho de Vila Nova Foz Côa, no distrito da Guarda.

Nas mesas de trabalho destes investigadores era possível ver milhares de fragmentos e peças de barro de vários períodos históricos, com incidência na Idade do Bronze e do período da ocupação romana na região da região Trás-os-Montes e Alto Douro.

Os materiais arqueológicos vão agora ser estudados, arquivados e catalogados, num trabalho que se vai prolongar por quatro anos, “mas já com resultados promissores”.

“Em termos técnicos, percebemos que a cerâmica era moldada porque não havia roda de oleiro e desta forma tudo era feito à mão, estamos a perceber através de pormenores técnicos como era elaborada. Percebemos que houve uma continuidade de ocupação humana no sítio da Castanheira do Vento durante um período de cerca de 1.500 anos. Houve aqui uma ocupação calcolítica muito importante neste território”, explicou à Lusa o arqueólogo João Muralha, da Universidade Nova de Lisboa.

Segundo o investigador, os materiais já estudados “são perfeitíssimos”, estando em causa objetos do terceiro milénio antes de Cristo, “devido aos elementos decorativos ou as próprias pegas dos recipientes, que anterior a este período eram desconhecidos porque vieram da meseta espanhola, das províncias de Salamanca e Zamora e que também aqui chegaram [alto Douro] havendo assim contactos pessoais”.

“Houve aqui uma mobilidade sistemática que não temos na pré-história, de pessoas que se encontraram e conversaram”, destacou João Muralha.

Já o arqueólogo francês Julien Ripoche, especialista em cerâmica, indicou que ficou surpreendido ao longo deste período de investigação pela qualidade do material estudado e modo de elaboração de cada peça.

“Há uma continuidade do que se produziu na Bretanha [França], com o que estamos a estudar aqui no concelho de Vila Nova de Foz Côa. São fenómenos idênticos que acontecem desde a Bretanha até Portugal, independentemente de os povos terem ou não estabelecido contactos”, vincou o especialista do município francês de Lyon.

Segundo aquele arqueólogo, “há também objetos cerâmicos provenientes da cultura Campaniforme cuja origem remete ao Castro do Zambujal, perto de Torres Vedras, mas que depois se alargou à Europa, e que coincide com a Idade do Cobre”.

“Aqui, a cultura Campaniforme era conhecida há cerca de 15 anos, no entanto, foram-se encontrados outros objetos da mesma altura e fazem parte deste acervo que está a ser agora estudado, explicou o arqueólogo João Muralha.

Também o arqueólogo luso-francês Tony Silvino, especialista em cerâmica do período romano, afirmou que este período histórico é cativante por haver indícios que são provenientes do espaço mediterrânico, como é caso da Tunísia, que trouxeram para esta região do interior duriense conhecimentos e técnicas que não existiam.

“Os romanos instalaram-se nestes territórios devido aos seus recursos naturais, como os cereais, vinho e azeite para terem um poder económico importante. No sitio do Prazo, em Freixo de Numão, criaram um centro de transformação de recursos, dividido à sua localização, junto a uma via navegável, como é o rio Douro, que é muito importante, para deslocações entre o centro de Espanha e o Oceano Atlântico”, explicou o investigador.

Silvino acrescentou: “Comecei aqui a escavar em 2001 e depressa nos apercebemos que o sítio era fantástico do ponto de vista arqueológico. Está bem conservado, verifica-se uma ocupação que vem desde a Pré-história até aos nossos dias. Aqui os materiais foram inventariados, mas não estudados, é o que estamos a fazer agora, para verificar as diferentes fases cronológicas deste sítio e a sua importância comercial e estratégica”, disse.

Por seu lado, a vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Foz, Ana Filipe, vincou que “estes dias de trabalho científico tiveram, igualmente, como objetivo despertar o interesse de outros investigadores e arqueólogos, não só nacionais como internacionais, e de universidades que pretendem estudar este espólio milenar resultante de mais de 30 anos de escavações arqueológicas”.

Os trabalhos vão incidir no estudo, digitalização e reconstrução das peças para depois serem colocadas em público, no trabalho arqueológico que começou em 1992.

Notícias do Centro | Lusa

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