Os Bombeiros Voluntários de Santa Maria da Feira querem que o Estado comparticipe o combustível das operações de socorro, num registo semelhante ao do gasóleo verde, e que conceda benefícios fiscais às empresas que contratem operacionais do setor.
O tema foi hoje abordado pela direção dessa corporação do distrito de Aveiro a propósito do desfile que no próximo domingo reunirá no Porto 1.500 operacionais de corporações de todo o país, para celebrar o Dia Internacional do Bombeiro.
Jorge Coelho é o comandante da corporação da Feira e admite que o evento “vai ser uma manifestação da força dos bombeiros portugueses”, mas declara que há dois problemas graves que afetam atualmente o setor: “Um é o aumento galopante do preço dos combustíveis e outro é a dificuldade em manter os bombeiros em funções”.
Tiago Heitor, que preside à Associação Humanitária dos Bombeiros da Feira, verificou a contabilidade dessa corporação de 70 homens e mulheres, e revela à Lusa: “No primeiro trimestre do ano passado, o nosso corpo ativo gastava 5.000 euros por mês com combustível. Este ano, nos últimos meses, já está a gastar 10.000”.
O dirigente garante que esse aumento de custos não tem sido acompanhado pela receita e está, por isso, “a asfixiar financeiramente as corporações”. No caso específico da da Feira, cujo orçamento na ordem dos 800.000 euros anuais depende em grande parte do Instituto Nacional de Emergência Médica, a situação até é agravada pelos prejuízos registados no período mais restritivo da pandemia, já que, nessa fase, “os bombeiros deixaram de fazer o transporte de doentes e perderam a receita desses serviços”.
Face aos preços agora praticados pelas gasolineiras, Tiago Heitor afirma que “o mínimo que o Estado pode fazer é comparticipar as despesas das corporações com combustível, como faz com o gasóleo verde para o setor agrícola”. Acrescenta que, estando em causa instituições de socorro, “também não faz qualquer sentido os bombeiros terem que pagar o combustível ao mesmo preço de um cidadão particular que ande em passeio ao domingo, por exemplo, ou vá de carro em férias para o Algarve”.
O comandante Jorge Coelho defende, aliás, que “o Estado podia fazer muito mais” para ajudar corporações como a da Feira, onde subsídios autárquicos, quotas de 1.500 sócios, donativos de empresários, prestações de serviços e rendas de imóveis serão insuficientes para equilibrar as contas face aos aumentos já vigentes e aos previstos.
Apelando a uma “mudança de mentalidade e de cultura” na postura do Estado para com as corporações portuguesas, o mesmo responsável argumenta que só quando o Governo valorizar devidamente os bombeiros se resolverá o outro “problema grave” que o setor enfrenta atualmente, que é o abandono precoce da carreira.
“A Suécia tem uma área geográfica semelhante à de Portugal, mas conta com quatro vezes mais bombeiros. Aqui, apesar de conseguirmos ter muitos candidatos na recruta e de esses até se tornarem mesmo bombeiros, ao fim de algum tempo abandonam a corporação porque, como não os podemos contratar como profissionais, têm que ter outro emprego e, a certa altura, não conseguem conciliar as duas coisas”, explica.
Tiago Heitor confirma essa análise, com base na estatística interna de anteriores recrutas: “Ainda agora formámos oito bombeiros, o que no panorama nacional é excelente, mas, a avaliar por outros anos, a dificuldade vai ser mantê-los aqui. Mesmo que houvesse vagas suficiente para os passar a profissionais, o salário que pagamos não é atrativo e a carreira não é aliciante”.
Para Jorge Coelho, a solução passa por “viabilizar uma discriminação positiva do bombeiro” nos cargos profissionais que ocupe fora da corporação, pelo que “o Governo deve emitir legislação ou normativas que, do ponto de vista fiscal, confiram regalias às entidades empregadoras que tiverem bombeiros nos seus quadros”.
O comandante acredita que, se não for suficientemente apelativo contratar um trabalhador com competências adicionais como saber prestar primeiros socorros e combater incêndios, a mais-valia financeira surtirá o devido efeito. “Sabendo que vão ser compensadas pelo tempo que esse funcionário faltar ao serviço para acorrer a um teatro de operações, as empresas terão outro incentivo para contratar bombeiros e eles terão outra disponibilidade para se manterem nos quartéis”, conclui.












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