Uma versão contemporânea do Tchiloli, manifestação cultural de São Tomé e Príncipe, é criada a partir de hoje em Leiria, pelo Orfeão local, no âmbito do projeto “Resistência e Afirmação Cultural”, da iniciativa Procultura.
O conservatório de artes de Leiria, representante português no projeto que junta os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e Timor-Leste, escolheu recriar uma versão moderna do espetáculo que junta teatro, música e dança para contar a tragédia do imperador Carlos Magno, obrigado a decidir entre a aplicação da lei e a condenação do próprio filho.
Segundo algumas fontes, o teatro tradicional Tchiloli é interpretado desde o século XVI, sendo uma manifestação cultural que São Tomé e Príncipe pretende ver declarada património imaterial da humanidade.
“Através da dança, da música e de alguns autores e escritores de São Tomé, vamos fazer uma recriação de Tchiloli e também musicar alguma dessa tradição, através de letras inéditas e fazendo também músicas específicas com poemas de lá”, explicou à agência Lusa o diretor-executivo e artístico da produção, Mário Teixeira.
Em Leiria, a residência de criação contemporânea começa hoje, na Black Box, envolvendo quatro dezenas de elementos de estruturas do Orfeão: a Camerata, o Coro de Câmara, alunos dos departamentos de dança e de música e equipa multimédia. As composições originais são de Mário Nascimento, “que compôs a partir de poemas são-tomenses”, e as coreografias de Ana Filipa Pedro, ambos professores no conservatório.
Este renovado Tchiloli cruzará dança contemporânea, música, multimédia e teatro, antecipou Mário Teixeira.
“A ideia é recriar: não fugir completamente daquilo que é a génese, que é a origem [do Tchiloli], mas dar-lhe outra vida”, explicou o diretor artístico, também responsável pela direção da Camerata.
O desafio vai proporcionar aos alunos vivências que não são da sua cultura. “Através da música e do teatro, eles têm acesso a outra estética musical, a outras estéticas de dança e, assim percebem qual a magnitude que tudo isto tem, porque em São Tomé e Príncipe este teatro é feito ao longo de um dia inteiro, com muita energia, com muita cor viva”, concluiu Mário Teixeira.
O Tchiloli revisto nesta produção portuguesa terá uma única apresentação ao público, no sábado, às 15:00, também na Black Box, numa sessão que será filmada para constar no museu virtual de “Resistência e Afirmação Cultural”.
O Orfeão de Leiria contribui para o projeto também com um conjunto de investigações e entrevistas. Luís Mourão (teatro), Ezequiel Santos (dança) e Hugo Castro (música) desenvolveram estudos sobre as respetivas áreas em Portugal antes e depois do 25 de Abril de 1974, enquanto Paulo de Carvalho, Sérgio Godinho, João Mota, Benvindo Fonseca, Clara Leão e Zia Soares estão a ser entrevistados. Este conjunto de conteúdos constará no museu virtual do projeto.
“Resistência e Afirmação Cultural” visa realizar investigações e recriações contemporâneas dirigidas, sobretudo por jovens mulheres de manifestações artísticas que ocorreram durante o processo de libertação colonial nos países africanos de língua oficial portuguesa (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe) e em Timor-Leste, bem como nas lutas antifascismo ocorridas em Portugal.
O projeto é da responsabilidade da iniciativa Procultura, cofinanciado pela União Europeia em Moçambique e pelo instituto Camões.











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