Coimbra

Um ‘comboio’ em Condeixa-a-Nova põe crianças a pedalar até à escola

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Um apito de madeira que lembra uma locomotiva dá sinal de arranque a um comboio de bicicletas que segue até à escola, em Condeixa-a-Nova. O projeto procura fomentar a autonomia dos mais pequenos e, no caminho, repensar a mobilidade.

São perto das 08:30 e Leandro Alves prepara os três filhos mais novos que tem em casa para seguirem viagem na primeira paragem do comboio, que vai amealhando crianças e pais ao longo de um trajeto de cerca de dois quilómetros até à escola.

O mais pequeno, Simão, de um ano, vai na cadeirinha da sua bicicleta – “daqui a dois anos já está a participar” -, Samuel, de seis anos, segue já com relativa autonomia por entre os colegas e atrás vai Sofia, de três anos, que ainda precisa de alguma ajuda e do olhar atento da mãe para acompanhar os restantes.

“A Sofia começou com rodinhas e com o incentivo da malta do comboio largou-as”, contou à agência Lusa Leandro Alves.

A iniciativa começou como uma espécie de projeto-piloto em 2025, mas, este ano, assim que veio o bom tempo, começou a realizar-se todas as quartas e sextas-feiras em Condeixa-a-Nova, envolvendo cerca de 24 crianças da Escola Básica N.º 3 do concelho, com a ajuda de voluntários e pais.

A coordenar a iniciativa está Luís Oliveira, que se mudou há três anos de Lisboa para Condeixa, de onde trazia na cabeça o exemplo de comboios de bicicletas promovidos pela Bicicultura.

“Pensei: ‘Vamos fazer isso acontecer em Condeixa-a-Nova’”, disse à agência Lusa o engenheiro informático de 41 anos e pai de Rodrigo, de seis anos, que segue no comboio.

No final de 2023, o coordenador da iniciativa conheceu a professora do ensino básico Isabel Menezes, que ensinava a sua turma a andar de bicicleta, com quem acabou a fundar o movimento Condeixa para Pessoas para fomentar uma reflexão sobre mobilidade no concelho.

Depois de algumas tentativas falhadas no passado de envolver o município, decidiram avançar de forma voluntária.

Com duas rotas, uma a servir a zona este da vila e outra a zona oeste, o projeto, além de ter pais a acompanhar o comboio, tem vários voluntários, que assumem o papel de maquinistas, que vão recolhendo e guiando as crianças até à escola.

Carlos Galvão, de 62 anos, é um dos maquinistas do projeto desde o seu arranque e decidiu juntar-se para poder ajudar as crianças a irem de bicicleta, com segurança, para a escola, num concelho quase sem ciclovias.

Carlos vê no projeto algo não apenas positivo para os mais pequenos, como também para os pais: “Obriga-os a correr e a andar de bicicleta”.

Gonçalo é isso que faz. Enquanto Afonso, de quatro anos, segue a pedalar, o pai acompanha a correr, ao lado.

“Se houvesse todos os dias, o Afonso vinha todos os dias”, notou a mãe, Patrícia.

Para Kim Almeida, com uma filha no 3.º ano, o projeto, por envolver um grupo grande, torna-se “mais apelativo”.

“Hoje, até houve aqui mães a caminhar e a bater-nos palmas na rua. Isso faz toda a diferença”, disse.

Para a mãe, o projeto permite não apenas fomentar a autonomia das crianças, mas também quebrar rotinas e criar comunidade “dentro da escola e dentro dos bairros”.

Samuel Anjos, pai de uma menina de oito anos na mesma turma da filha de Kim, vê no projeto também uma forma de se romper com uma sociedade “muito agarrada aos ecrãs”.

“Torna-se também mais fácil durante o fim de semana agarrarmos neles e irmos dar uma volta de bicicleta. Então, já é parte de um estilo de vida que nós queremos enraizar”, vincou Samuel.

Pedro Camarinho, técnico da Câmara, é outro dos maquinistas, como voluntário, recordando que, no passado, ainda antes da pandemia, já tinha tentado algo parecido junto da autarquia, mas sem sucesso.

“Quando se vê uma coluna de bicicletas, as pessoas conduzem com mais calma. A literacia é um processo”, admitiu, referindo que é preciso ter alguma paciência e insistência para mudar hábitos que acredita que em Condeixa têm muito espaço para florescer.

“O declive não é nada de especial, é um município em que as grandes densidades estão sobretudo próximas do centro, o que é mais uma razão para as crianças adotarem a bicicleta para irem para a escola. Cada criança que vem neste comboio é menos um carro que estaciona à frente das escolas. É uma luta, mas é uma oportunidade”, vincou.

Para Luís Oliveira, o comboio mostra também as dificuldades de se andar de bicicleta em centros urbanos que foram desenhados durante 30 ou 40 anos a pensar no carro. Por isso, disse acreditar que as hierarquias também têm de mudar – no próprio desenho e uso do espaço e vias públicas.

No futuro, o projeto pretende estender-se a outro centro escolar no centro de Condeixa e quer ir contaminando políticas públicas centradas numa mobilidade suave e ativa.

Um Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) em Condeixa seria um ponto de partida, afirmou Luís Oliveira, que acredita que se houver vontade política para se avançar com tal iniciativa parte das barreiras que tornam inseguro o percurso entre casa e escola poderão ser esbatidas.

Notícias do Centro | Lusa

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