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Omiri em palco em Vale de Cambra com música feita de teares e calambrias saídas do forno

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photo Rita Carmo

 O músico Omiri estreia sábado no Centro de Artes e Espetáculos de Vale de Cambra uma produção multimédia concebida a partir de vídeos e sons recolhidos entre tecedeiras, fabricantes de doces e outras figuras da comunidade local.

Sob esse pseudónimo artístico, o artista Vasco Ribeiro Casais trabalhou durante cinco meses com associações, músicos, artesãos, trabalhadores e outras entidades do referido concelho do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto, reunindo testemunhos, sons e imagens numa produção final que pretende representar pela música a identidade de Vale de Cambra.

“O espetáculo é uma espécie de ‘fotografia’ do concelho e das suas pessoas, de acordo com a minha visão estética e artística, mas sempre numa combinação que, mesmo para quem já segue o meu trabalho, será única e diferente, porque é específica sobre a realidade de Vale de Cambra”, declarou Omiri à Lusa.

Durante cerca de 60 minutos, o público poderá assim apreciar não apenas vídeos e gravações sobre a comunidade local e a paisagem onde essa vive e trabalha, mas também os seus protagonistas reais, já que “cerca de 80 pessoas vão passar pelo palco” para dar a conhecer aquilo que as torna “especiais no território”.

A banda sonora proporcionada pelos moinhos de água do município junta-se assim aos cantares do Grupo de Folclore “Terras de Arões”, à percussão dos teares da Associação de Artesãs de São Salvador de Rôge e à música da Banda Filarmónica de Vale de Cambra, entre contributos de outras coletividades e também de participantes individuais.

“Há o senhor que faz as chaves, o alfaiate que tem uma atividade cada vez mais rara, o sapateiro que ainda resiste com os seus arranjos”, conta Omiri, realçando o papel dessas “pessoas concretas” num retrato do concelho que diz pincelado “obrigatoriamente com vídeo e com som”, mesmo que a parte sonora nem sempre seja cantada ou resulte de um instrumento musical, nascendo antes do próprio movimento dos ofícios em causa, das ferramentas usadas nesses mesteres e dos processos que eles envolvem.

É disso exemplo a sonoridade dos teares manuseados por Fátima Leite e Helena Santos, que, até trabalharem com Omiri, ignoravam o potencial musical da tecelagem. “Nunca tínhamos pensado nos sons que fazemos no tear”, confessa Helena. “Perceber que ele também pode ser um instrumento musical foi uma novidade. Não sabia que o bater dos pedais podia fazer música, mas foi fantástico trabalhar com essa noção e estou muito curiosa para ver o espetáculo”, disse Fátima Leite.

Anabela Almeida fez música para Omiri com peças mais delicadas. Trabalhando há 10 anos na padaria Preval, a pasteleira especializou-se na confeção de calambrias e deixou-se gravar a preparar esse doce, cuja aparência lembra os antigos pastéis de feijão retangulares, mas resulta de uma receita recente, especificamente concebida para um concurso destinado a criar para Vale de Cambra um bolinho que combinasse os ingredientes típicos do território: requeijão de ovelha, mel e castanha.

“Tive que pensar como ia fazer a receita de forma a evidenciar os sons”, explica Anabela. Habituada a executar tudo com rapidez, focou-se, por isso, no ritmo e timbre de duas operações: “O bater dos ovos com o açúcar numa taça metálica, porque gosto muito da sensação, e depois o barulho das calambrias a sair do forno, no final do trabalho”.

Ansiosa por saber o que Omiri fez com essas gravações e as outras que recolheu no município, a pasteleira deixa-lhe um elogio discreto. “Quem pensou e idealizou este projeto fez muito bem”, proclama.

O músico ainda está a ultimar detalhes para o espetáculo de sábado, mas, embora admitindo que “gostava de ter tido mais tempo” para o contacto com a comunidade e a prospeção da paisagem visual e sonora do território, deixa já evidente a sua satisfação quanto à experiência. Fundindo tradição e contemporaneidade, Omiri considera cumprida a missão de “dar visibilidade às pessoas da terra, ao que sabem e ao que fazem”.

Notícias do Centro | Lusa

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