CoimbraDestaque

Coimbra: Entre a dança, a música e o surf, jovens autistas encontram um lugar de pertença

0
Maria do Mar Vieira, 30 anos, diagnosticada com autismo aos 16 anos, é bailarina e encontrou na dança um espaço de expressão e equilíbrio, no Porto, 17 de abril de 2026. Num mês dedicado à consciencialização do Autismo, a mensagem é de normalização: mais do que encaixar num padrão, o desafio está em permitir que cada pessoa encontre o seu lugar — e nele, autonomia, equilíbrio e pertença. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 20 DE ABRIL DE 2026). JOSÉ COELHO/LUSA

Maria do Mar Vieira tem 30 anos, vive em Coimbra, é bailarina e encontrou na dança um espaço de expressão e equilíbrio. Tinha 16 anos quando recebeu o diagnóstico de autismo. “Entrei ali numa espiral. Tive uma depressão gigante. Não saber quem era”, recorda.

Na escola, já conhecia o estigma. “Eu tinha na minha escola um colega que era autista. E eu via como é que o tratavam. Então eu tinha medo.”

Hoje, é bailarina e encontrou na dança uma forma de se expressar. “Ali eu conseguia exprimir-me e dizer aquilo que eu não conseguia dizer em voz alta”, conta. “Foi a dança que sempre me puxou cá para cima. Eu digo que foi a dança que me salvou.”

Fala de conquistas com consciência e emoção. “Sempre que existe algo positivo, alguma conquista, eu agarro-me a elas e celebro-as.”

Para quem procura um caminho, deixa uma ideia simples: “Fazerem aquilo que elas gostam e não desistirem de procurar.”

A importância de encontrar esse espaço é sublinhada pela pediatra do neurodesenvolvimento Micaela Guardiano. “Quando nós nos encontramos num lugar seguro, onde nos realizamos, isso traz-nos sempre felicidade e potencia muito aquilo que nós podemos ser.”

Além do palco, Maria do Mar criou uma página nas redes sociais onde partilha a sua experiência enquanto pessoa autista, numa tentativa de dar voz a quem muitas vezes não a tem e apoiar outras pessoas e famílias.

No Conservatório de Música do Porto, o acordeão marca o percurso de Dinis Ferreira, de 14 anos. Observador e atento a tudo, comunica pouco — mas expressa-se.

“A expressão dele está mais relacionada com a parte da música”, explica o professor José Fangueiro.

A mãe, Alzira Ferreira, encontrou na música um caminho possível. “Eu penso que o ajudou na concentração, dar valor a ele próprio e faz com que ele se sinta mais motivado. Aqui o Dinis é igual aos outros.”

Num quotidiano onde a escola pode ser fonte de frustração — “eu não percebo o que os professores estão a dizer” — a música surge como refúgio. “Ele toca sozinho, dança sozinho, sente-se assim, livre.”

“Eles, gostando, vão sempre sentir-se bem”, resume o professor, sublinhando o impacto na autoconfiança e na motivação.

Mais a norte, em Matosinhos, é no mar que Vicente Proença, de 8 anos, encontra o seu equilíbrio. Apaixonado por carros, identifica-os à distância pelos detalhes dos retrovisores e tejadilhos, e sonha um dia “abrir uma escola de surf nos Açores”.

Antes de entrar na água, hesita. “Só vou apanhar uma onda”, diz. No final, são várias.

“O contacto com a água é um estímulo regulatório”, explica a mãe, Rita Gigante. “Este tipo de desportos ajuda o Vicente a estar mais regulado e a sentir-se muito melhor”.

O impacto estende-se ao dia-a-dia. “Está muito mais focado, muito mais tranquilo” depois do surf.

Para a família, o mais importante é a normalização. “O Vicente aqui não é o Vicente com autismo. É o Vicente.”

Rita acompanha também outras famílias e partilha informação sobre autismo, defendendo maior capacitação da sociedade e entreajuda entre pais.

O instrutor de surf Tiago Fazendeiro acompanha-o há cerca de dois anos. “Somos uma família e abertos a toda a gente”, diz, admitindo não ter formação específica. “Tentamos ir ao encontro das necessidades, e todos temos necessidades.”

Nota evolução sobretudo social. “Ele tem o seu tempo tal e qual como toda a gente”, conta e resume: “Essa autonomia e a parte social é super importante.”

Para a pediatra Micaela Guardiano, estes percursos refletem um princípio essencial. “Cada pessoa é muito diferente, por isso, falar nisto como um todo, é sempre muito abusivo”.

E reforça: “É muito importante não tentarem normalizar a diferença mas perceber como potenciar aquilo que aquela criança tem”.

Mais do que terapias, destaca o papel das experiências. “Precisam de experiências multidiversas, é isso que promove o desenvolvimento”.

Entre o palco, a música e o mar, as histórias cruzam-se numa ideia comum: encontrar um espaço onde seja possível crescer.

Num mês dedicado à consciencialização do Autismo, a mensagem é de normalização: mais do que encaixar num padrão, o desafio está em permitir que cada pessoa encontre o seu lugar — e nele, autonomia, equilíbrio e pertença.

FOTO: LUSA

Notícias do Centro | Lusa

Mau tempo: Aguiar-Branco visita distrito de Leiria acompanhado pelos líderes parlamentares

Notícia anterior

Primeira translocação de 2026 leva 30 lampreias para praia fluvial de Coimbra

Próxima notícia

Também pode gostar

Comentários

Comentários estão fechados

Mais em Coimbra