Um grupo de especialistas da Universidade de Coimbra (UC) vai apresentar, no início de junho, as conclusões preliminares de um estudo sobre a razão das cheias do Mondego e as suas consequências.
A equipa é liderada pelo antigo reitor Seabra Santos, que, apesar de não querer antecipar cenários, garantiu à agência Lusa que o sistema hidráulico do rio Mondego, construído a partir da década de 70 do século passado, está atual e apenas precisa de manutenção.
“O Mondego não está a ser cuidado e um dos principais problemas neste momento é que precisa de quem cuide dele e isso não existe. A diligência que é posta num momento da desgraça devia ser posta todos os dias no rio Mondego. E, se assim fosse, estas desgraças não aconteceriam”, frisou o professor catedrático, doutorado em Oceanografia Física pela Universidade de Grenoble, em França.
O especialista em engenharia de recursos hídricos, hidráulica e ambiente lembrou que os diques do rio Mondego foram construídos para aguentar uma cheia de 2.000 metros cúbicos de água por segundo, mas já ruíram três vezes nos últimos 25 anos em cheias que se aproximam ou pouco ultrapassam aquele valor.
Perante esta situação, Seabra Santos considerou “sintomático de que alguma coisa não está, de facto, a funcionar”, destacando a última cheia registada em fevereiro, o que o leva a apontar como fatores principais a falta de manutenção e de uma estrutura local e dedicada que se ocupe do problema todos os dias.
“Com, vamos dizer, 10 milhões de euros por ano, evitávamos ter que lá pôr de 10 em 10 anos uma importância muito superior a 100 ou 200 milhões”, sublinhou o antigo reitor, salientando o Mondego entre Coimbra e a Figueira da Foz corre num leito artificial, construído no final do século XIX, e que deve ser tratado como uma obra de engenharia.
Para o especialista, um dos principais problemas é “continuarem a pensar que o rio Mondego é um rio natural e que deve ser tratado como um rio natural, quando é uma obra de engenharia e deve ser tratado e mantido como tal”.
“Não podemos deixar continuar a fazer crescer árvores e vegetação em diques de aterro que foram construídos daquela maneira, com camadas de argila impermeável, para evitar que a água passe”, referiu.
O crescimento de árvores de grande porte e de todo o tipo de espécies no leito central e nos leitos periféricos do norte e sul e em todas as valas do baixo Mondego significa, segundo Seabra Santos, que “nada daquilo é tratado e mantido, pelo que não se pode dizer que a obra não funciona, porque simplesmente não é cuidada”.
O assoreamento do rio é outras das preocupações do antigo reitor da UC, que preconiza dragagens regulares entre a zona da Portela e a Ponte Açude, cujo leito, pelos seus cálculos, está “a assorear a uma velocidade de aproximadamente 70 mil metros cúbicos por ano”.
“Tenha-se consciência de que o leito do rio, em Coimbra, terá subido qualquer coisa como 15 metros, desde o século XIV até à atualidade”, sustentou o académico, salientando que “retirar um metro de areia desta zona do rio significa baixar um metro da próxima cheia”.
No entanto, segundo Seabra Santos, a jusante da Ponte Açude existe um problema inverso – a areia está a ser retida pela Ponte Açude e o rio está a sofrer uma erosão, que origina “escavações [no leito] que não deviam existir”.
“É provável, sem dar ainda a resposta, tanto quanto o nosso conhecimento permite alcançar, que a nossa conclusão seja propor a dragagem mais frequente do rio na zona de Coimbra e a reposição desses dragados a jusante do açude, em zonas que têm que ser avaliadas para evitar as erosões que estão a acontecer”.
O grupo de trabalho, que entrou em funções ainda em janeiro, quando o país passou a ser assolado por várias depressões, integra os académicos Alfeu Sá Marques, Cidália Fonte, Isabel Pedroso de Lima, Nuno Simões, Paulo da Venda, Ricardo Mendes e Rita Fernandes de Carvalho.
As conclusões finais serão apresentadas depois do verão, em outubro, e publicadas numa brochura editada pela UC.













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