Mau Tempo: Carla só consegue andar no Pinhal do Rei de “olhos no chão e coração despedaçado”

Carla Marrazes, residente na Marinha Grande diz que lhe custa levantar a cabeça quando percorre o pinhal, um sitio onde já está a apanhar lenha para o seu aquecimento no inverno, em Marinha Grande, 24 de abril de 2026. As pessoas ainda aguardam que a vida volte ao normal na zona do Pinhal de Leiria, depois da passagem da tempestade Kristin a 28 de fevereiro. (ACOMPANHA TEXTO DE 27 DE ABRIL DE 2026). CARLOS BARROSO/LUSA
Carla puxa a bicicleta a pé, carregada de sacos com pinhas e lenha miúda. Anda de “coração despedaçado” e olhos fixos no chão, que não consegue encarar de frente as árvores partidas do Pinhal do Rei.
“Ando à lenha, mas é de coração despedaçado e sempre a olhar para o chão”, diz Carla Marrazes, de 52 anos, que caminha à beira da estrada junto a Gaeiras, terra da Marinha Grande encostada ao Pinhal do Rei, também conhecido como Pinhal de Leiria.
De luvas calçadas e com uma serra presa ao guiador, Carla carrega a custo a bicicleta, ora de olhos fixos no asfalto, ora de cara virada para a sua esquerda, para não enfrentar os milhares de pinheiros adultos arrancados, mas sobretudo partidos, pela força do vento.
“Dói muito. Ainda agora tive de fechar os olhos”, diz Carla, que cresceu e viveu toda a vida com o Pinhal do Rei ao seu lado.
A morar nas Gaeiras, Carla Marrazes lembra-se de uma infância feliz, com o Pinhal como recreio predileto de todas as crianças que por ali moravam. Pegavam em plaquinhas de tabopan (madeira laminada) e transformavam as dunas em escorregas, por entre “árvores gigantes” que davam sombra a toda a gente.
“Este Pinhal era todo nosso”, recorda-se, lamentando agora as árvores caídas, o Parque de Merendas da Portela destruído e muito menos gente por aquelas bandas – espaço para corridas, caminhadas e piqueniques.
Desempregada, Carla apanha toda a lenha e pinhas que pode, que sente que virá um inverno mais rigoroso, com ventos mais fortes vindos da costa, que não terão pela frente o pinhal a funcionar como barreira.
“Agora é apanhar porque depois não nos vai restar nada e isso dói muito no coração. O Pinhal dava-nos muito sustento, dava-nos terra, pinhocas [pinhas], pauzinhos para a lareira, para o churrasco. Fazia parte da nossa vida”, diz.
Mesmo com a grande maioria das árvores partidas e caídas, ainda se ouvem cantos de pássaros, mas o lugar onde ia “alimentar a alma” não consegue agora encontrar.
“A gente sentia o ar do Pinhal, a calma, a natureza em si. Ajudava a desanuviar, a recarregar energias”, diz.
Já no caminho de regresso a casa, Carla diz que a volta, desta vez, foi mais curta, depois de ter desviado o olhar para a mata que já conheceu.
“Olhei um bocadinho e não consigo enfrentar. Vou-me já embora”, afirma.
João Pedro, de 57 anos, também da zona, faz uma caminhada à beira da mata e diz à Lusa que o cenário “é desolador”.
Habituado a correr por trilhos no Pinhal do Rei, nota a falta de sombras para quem queira passear ou fazer desporto.
“Veem-se alguns pinheirinhos novos que resistiram e estão a crescer. Talvez daqui a 30 anos haja um pinhal parecido, mas já não vai ser no meu tempo”, nota.
Junto à estrada onde João Pedro caminha, Carla Almeida estaciona o carro e segue a pé por um aceiro já desimpedido, com Felix à trela, um cão de médio porte, cinzento e branco.
Já dentro do caminho e longe da estrada, larga o cão, que corre e pula, por entre árvores caídas.
“Ele veio do canil há dois anos e meio e adaptou-se bem à casa, mas o pinhal é a casa dele”, conta à Lusa Carla Almeida.
“Eu sei que há pessoas que dizem para ter cuidado e para não trazer os cães porque eles podem aleijar-se. Ele já tem umas marcas e uns arranhões, mas é a casa dele. Ia privá-lo disto?”, pergunta, enquanto vigia de perto o cão, que ciranda por entre o que resta do pinhal.
Para o futuro próximo, Carla Almeida lamenta a falta de sombras, depois de grande parte das árvores que não foram afetadas pelo incêndio de 2017 terem tombado com a passagem da tempestade Kristin.
Sobre o risco de incêndios, recusa-se até a dizer a palavra. “Nós sabemos o que nos espera”, diz, triste, apenas um pouco alentada pelo trabalho que tem visto de limpezas de aceiros.
“Vai demorar muito tempo a voltarmos a ter o nosso Pinhal de volta”.
FOTO: LUSA











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