O quartel dos Bombeiros de Figueiró dos Vinhos está por estes dias transformado numa espécie de loja do cidadão e já recebeu mais de 400 pedidos de ajuda após a passagem de depressão Kristin, na quarta-feira.
Quem entra hoje em Figueiró dos Vinhos pelo Itinerário Complementar 8 (IC8) ainda encontra vestígios da passagem da depressão Kristin, com dezenas de postes de eletricidade derrubados à beira da estrada, fios de eletricidade presos a árvores, árvores derrubadas pela raiz, sinais e placas de trânsito dobrados com a força do vento.
“Definimos aqui o quartel-general de tudo, o posto de comando de tudo. Temos um gabinete de apoio à população que é feito pela Ação Social da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos para as pessoas virem pedir ajuda no sentido de assinalar o que precisam, sejam telhas ou outras coisas. Posso-lhes dizer que temos mais de 400 pedidos de ajuda”, disse hoje à Lusa o comandante dos Bombeiros de Figueiró dos Vinhos, Jorge Martins.
Sílvia M. era uma das dezenas de pessoas que estava hoje à espera para chegar a um dos ‘guichés’ improvisados com cadeiras no piso superior do quartel dos bombeiros, para ser ouvida por uma das assistentes da Ação Social da Câmara Municipal de Figueirá dos Vinhos, no distrito de Leiria.
“A nossa prioridade no início, devido à falta de comunicações, foi centrar todo o apoio à população no mesmo sítio para ser fácil difundir essa informação e todos os pedidos de ajuda, fossem de que natureza fosse, estivessem centrados no quartel dos bombeiros. A Câmara tem também técnicos a dar apoio psicológico à população que esteja sinalizada para rapidamente dar esse apoio às pessoas”, acrescentou o comandante dos bombeiros.
Neste momento, apenas cerca de 30% do concelho de Figueiró dos Vinhos tem eletricidade, destacou Jorge Martins.
“Apenas a freguesia de Figueiró está a ser alimentada uma parte pela E-Redes, que conseguiu resolver rapidamente. Mas, depois nas freguesias de Campelo não temos qualquer tipo de luz, nem comunicações, a freguesia de Arega também não tem comunicações e a freguesia de Aguda, neste momento, tem uma parte coberta com eletricidade, mas outra parte não tem luz”, explicou o responsável.
Maria Remédios, auxiliar da Santa Casa da Misericórdia, está desesperada porque não tem luz desde quarta-feira e nem abre a arca congeladora, porque não quer ver a comida que está estragada.
No Bairro de São João Batista, a casa de Jorge Ventura, 57 anos, ficou inundada e com inúmeros estragos. O exército colocou lonas no telhado este domingo, mas Jorge sabe que os prejuízos da tempestade vão obrigar a obras de fundo.
“O que me vale é que tenho seguro da casa. Já acionei o seguro”, contou, com lágrimas nos olhos, mas satisfeito com a ajuda dos militares, da autarquia e dos bombeiros.
Maria Inácio, proprietária de uma casa no centro da vila de Figueiró dos Vinhos, ficou sem chaminé e sem parte do telhado.
“A casa está toda inundada por dentro e tivemos de tirar o que foi possível”, contou, explicando que teve de pedir ajuda à Câmara para conseguir que fossem colocar lonas no telhado.
“Sinalizámos os problemas e vieram cá meter telas dentro das possibilidades, porque com este tempo não subimos ao telhado, porque é perigoso”, disse.
Ainda segundo o comandante dos bombeiros, a prioridade foi que todas as freguesias de Figueiró tivessem pelo menos água potável e isso foi conseguido.
“Conseguimos através de geradores e com apoio da E-Redes resolver essa questão e 100% do concelho tem água potável sem qualquer tipo de problema”, salientou, acrescentando que o Exército está também a tentar resolver alguns problemas já identificados pelo município e que irão chegar mais dois pelotões de Santa Margarida.
Com esses dois pelotões, disse, irá continuar o trabalho de proteger os telhados com lonas.
“Estamos também a contactar empresas para nos arranjarem plataformas para o Exército conseguir subir aos telhados e pôr as coberturas nos telhados”, referiu ainda.
Nove pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois três óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 69 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.










Comentários