A Câmara de Leiria aprovou hoje um protocolo a celebrar com a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) para valorizar o Vale do Lapedo, onde em 1998 foi encontrado o “Menino do Lapedo”, esqueleto com cerca de 29 mil anos.
O protocolo “estabelece uma parceria visando destacar a importância do Vale do Lapedo”, na União de Freguesias de Santa Eufémia e Boa Vista, “para a compreensão da evolução humana e da história dos primeiros hominídeos na Península Ibérica”.
No documento, aprovado por unanimidade, a autarquia e a DGPC comprometem-se a “conceber, estruturar e propor um programa de interpretação e comunicação relativo ao Vale do Lapedo, no conjunto dos seus valores e valências de cariz cultural e natural”.
Através do acordo é criado um grupo de projeto que deve apresentar às duas entidades um programa que inclua uma proposta de narrativa para o lugar, “permitindo que o Vale do Lapedo possa constituir-se como um destino de conhecimento da pré-história, das importantes descobertas arqueológicas e vestígios materiais e, também, de fruição pública do lugar e do património natural envolvente”.
Além disso, e a partir dessa narrativa, o mesmo grupo deve elencar “um conjunto de objetivos, meios e ações que visem a interpretação e comunicação do Vale do Lapedo, junto dos diferentes públicos”, com cronograma e uma estimativa orçamental para a sua concretização.
Integram este grupo de projeto António Carvalho (da DGPC, que coordena), a vereadora da Câmara de Leiria Anabela Graça, o arqueólogo João Zilhão (que liderou a primeira equipa que trabalhou no local onde foi encontrado, em novembro de 1998, o “Menino do Lapedo”), a arquiteta paisagista Aurora Carapinha e o escritor Gonçalo Cadilhe.
O programa de interpretação e comunicação deve ser apresentado em 28 de abril, quando cessa o protocolo.
Na reunião de câmara, o vereador independente Álvaro Madureira salientou que o achado vai fazer 25 anos, sendo esta efeméride uma oportunidade para melhorar a proteção do Vale do Lapedo e “zona adjacente, para futuras gerações”.
“Não podemos pactuar com o desvirtualizar da paisagem”, defendeu, alertando para a possibilidade de 40 hectares de painéis solares serem instalados na zona, podendo “danificar visualmente a paisagem que se quer protegida daquele achado e que é só a ponta do icebergue” para se conhecer a evolução humana, acrescentou.
Insistindo que “é preciso haver uma proteção muito abrangente” num local onde há pinturas rupestres que “estão à mercê de qualquer pessoa que passe por ali”, Álvaro Madureira frisou a necessidade de se “passar para um patamar de exigência de proteção” daqueles achados, de forma a não causar danos irremediáveis.
A vice-presidente da Câmara Anabela Graça (PS), que tem, entre outros, o pelouro da Cultura, notou que o protocolo é um “trabalho que resulta de um ano de conversações com o Ministério da Cultura”.
Segundo Anabela Graça, o acordo vai incrementar a componente da interpretação do Vale do Lapedo, assim como de divulgação, para se criar “mais informação, mais conhecimento”.
“Visa, também, criar um trabalho que nos vai permitir definir um programa ao nível da requalificação” e da fruição do espaço, sempre tendo por base a sustentabilidade e a grande exigência na preservação deste espaço singular, adiantou a vereadora.
Para a vice-presidente do município, este “é um passo muito importante” num ano em que se comemora os 25 anos do achado, garantindo que a Câmara quer “deixar uma marca para o futuro com elevado patamar de exigência”.
O protocolo deverá ser assinado na segunda-feira, em Leiria, na presença do ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva.
Em 19 de fevereiro de 2022, o Município de Leiria anunciou que o sítio arqueológico Abrigo do Lagar Velho, classificado em 2013 como Monumento Nacional, onde foi descoberto o esqueleto do “Menino do Lapedo” (classificado, assim como os artefactos arqueológicos associados, como Tesouro Nacional), sofreu atos de vandalismo, tendo sido apresentada queixa à Guarda Nacional Republicana e relatada a situação à DGPC e à Direção Regional de Cultura do Centro.
Segundo a autarquia, os danos causados foram sobre o denominado “Testemunho Pendurado” e não no “Menino do Lapedo”, um esqueleto com cerca de 29 mil anos descoberto em 1998.
A descoberta do esqueleto marcou a paleoantropologia internacional, por se tratar do primeiro enterramento Paleolítico escavado na Península Ibérica e porque a criança apresenta traços de ‘neandertal’ e de ‘homo sapiens’.
O “Testemunho Pendurado”, com cerca de 60 cm de espessura, preenche uma fissura estreita e alongada, na parede de fundo do abrigo cortada pela terraplanagem, situada 1,2 a três metros acima da superfície artificial do terreno. Os depósitos vieram a revelar contextos arqueológicos datados entre 24 mil e 26 mil anos.
O Ministério Público arquivou o inquérito.
Em 2013, o Abrigo do Lagar Velho foi classificado como Monumento Nacional e o Vale do Lapedo como Zona Especial de Proteção.









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