As falhas nas telecomunicações são a questão mais grave no processo de recuperação dos estragos provocados pela depressão Kristin em Ansião, no interior do distrito de Leiria, considera o presidente da câmara.
“Em 10 quilómetros, entre Ansião e Figueiró dos Vinhos, este telefonema já caiu três vezes. É o melhor retrato que posso fazer da nossa situação – é a forma como se trata o interior, é assim…”, lamentou Jorge Cancelinha, na conversa telefónica com a agência Lusa.
Em Ansião, apesar de se manterem soluções de recurso, como no fornecimento de eletricidade, e haver muito amianto por recolher e problemas nalguns edifícios públicos – como na Junta de Freguesia de Avelar, onde é preciso “substituir todo o telhado” -, “o grande problema é mesmo a nível das telecomunicações”.
“Para além de ainda nem toda a gente ter as telecomunicações restabelecidas, o abastecimento de quem já tem é intermitente. Há pessoas que já tiveram, deixaram de ter, voltaram a ter e agora já não têm outra vez…”, descreveu o presidente da Câmara de Ansião.
As equipas de manutenção andam no terreno – “pelo menos chegam-me relatórios diários das intervenções que se fazem” -, mas “o que é certo é que ainda há muita gente” que, cinco meses depois da tempestade, “continua sem serviço”.
Ao município, a justificação que chega é que o problema “deriva muito de todos os trabalhos de limpeza de terrenos que vão acontecendo por parte dos madeireiros”, que “por vezes impactam na rede de telecomunicações”.
Mas, assinala Jorge Cancelinha, “isso não é justificação para, por exemplo, no centro da vila de Ansião ainda haver gente que não tem a ligação estabelecida, desde o dia 28 de janeiro!”.
A título de exemplo, o autarca recorda a freguesia de Chão de Couce, onde “há duas estradas cortadas porque têm postes, fios e cabos de telecomunicações caídos. É o ponto em que isto ainda está”.
Outra preocupação considerável é a limpeza de terrenos no concelho de Ansião onde estão ainda muitas árvores caídas.
“Com meios próprios do município e também das equipas de sapadores que temos aqui concessionadas à associação florestal, já conseguimos desimpedir toda a rede primária de caminhos florestais e agrícolas”.
Desde a tempestade de 28 de janeiro, Ansião tornou circuláveis 163 quilómetros de estradas, mas “nas áreas dos particulares há muito trabalho por fazer e não vai ser possível, em curto espaço de tempo, recolher toda a madeira que está caída na floresta”, alerta o autarca.
“São cerca de 150 quilómetros quadrados de floresta que foi afetada e, portanto, é um trabalho que vai levar tempo”, acrescentou.
Através da Área de Integrada de Gestão da Paisagem de Ansião houve já 400 manifestações de interesse de cidadãos para receber o incentivo de limpeza de terrenos.
“Num concelho pequeno, para 400 proprietários é preciso mão de obra, meios e é preciso tempo, também. E o verão já está aí”.
Jorge Cancelinha reconhece que em Ansião “o risco é elevado”, porque “a carga de combustível na floresta é muita, há muita lenha seca e as temperaturas estão altas”.
“As condições para que possa haver alguma ignição de incêndio são muito favoráveis”, reconheceu, preocupado.
Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal entre o final de janeiro e o início de março na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Mais de metades das mortes foram registadas em trabalhos de recuperação.
Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos superiores a cinco mil milhões de euros.












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