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Fogos: Burocracia tem-se sobreposto à necessidade de prevenir em mata de Vouzela

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A Câmara de Vouzela quer estruturar a Mata da Senhora da Castelo, tornando-a num exemplo para o país, mas a burocracia tem-se sobreposto à necessidade de prevenir os incêndios florestais, lamentou o presidente da autarquia, Rui Ladeira.

Com cerca de 50 hectares, a Mata da Senhora da Castelo é propriedade do município e tem gestão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

No dia 16 de outubro de 2018, um ano após os incêndios que atingiram a região Centro, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, esteve nesta mata a arrancar eucaliptos que tinham nascido espontaneamente e a substituí-los por espécies autóctones.

Nesse dia, Rui Ladeira, que é engenheiro florestal, partilhou com Marcelo Rebelo de Sousa e com membros do Governo as suas ideias para minimizar o risco de novas tragédias, não só no seu concelho, mas em todo o território nacional.

“Estarmos aqui a arrancar os eucaliptos e, por sua vez, substituir e colocar espécies autóctones, como carvalho, sobreiro e castanheiro, é um sinal daquele que deve ser o caminho que devemos calcorrear para o futuro”, disse, na altura, o autarca, explicando que, na prática, isso era “fazer reordenamento florestal”.

E acrescentou que, caso contrário, haveria “eucaliptos à solta” que aumentam o risco de incêndio e, seis a dez anos após o trágico outubro de 2017, acontecerá “uma calamidade igual ou superior”.

“A mata foi uma área muito fustigada pelos incêndios. Queríamos demonstrar e transmitir ao país, num espaço público, aquilo que defendemos ser a estratégia da floresta e da organização do território”, disse Rui Ladeira à agência Lusa, cinco anos após os incêndios de outubro de 2017.

Segundo o autarca, uma vez que “não houve iniciativa do ICNF para apresentar um projeto para estruturar este espaço, o município disponibilizou-se para fazer uma candidatura ao Portugal 2020 – Programa de Desenvolvimento Rural (PDR), de modo a não perder uma boa oportunidade de recuperar esta mata pública”.

A candidatura foi chumbada pelo Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP) por falta do Plano de Gestão Florestal (PGF), documento sob a responsabilidade da entidade gestora, que “não estava atualizado”.

“Olhou-se para a legalidade e perdeu o território e perdeu a Mata da Senhora do Castelo”, lamentou.

O plano previa um investimento de 82 milhões de euros, que tinha como objetivo o controlo de invasoras lenhosas, limpezas de matos e adensamento com espécies autóctones.

No entanto, a autarquia não desistiu e já apresentou nova candidatura no âmbito do PDR, em fevereiro.

Segundo Rui Ladeira, recentemente, a candidatura – que prevê um investimento de 63.841 euros – obteve a aprovação, mas condicionada à apresentação do PGF.

“Atendendo a que o ICNF não atualizou o PGF, o município já tomou a iniciativa de se substituir a esta entidade”, frisou.

O autarca disse que, independentemente desta candidatura, o município não baixou os braços e, após os incêndios, “fez um trabalho estruturante de recuperação progressiva da mata, com muitas parcerias e o apoio de várias vontades públicas, associativas, empresariais e individuais”.

A limpeza de lenhas ardidas e matos (pelos sapadores florestais e por grupos de voluntários), o arranque de infestantes (mimosas e eucaliptos) e o aproveitamento da regeneração natural, ou seja, plantas que nasceram ou rebentaram (carvalhos, sobreiros, pinheiro-bravo, vidoeiros, ciprestes do Buçaco), foram algumas ações desenvolvidas.

Segundo Rui Ladeira, foram também plantadas mais de 12.000 plantas: espécies adaptadas ao local, sobretudo folhosas, como carvalhos, sobreiros, castanheiros, vidoeiros, faias e medronheiros, alguns ciprestes e pseudotsugas (conífera), “com o apoio de muitas escolas locais, grupos de voluntários, empresas, bombeiros locais e associações”.

Estas ações têm sido repetidas ciclicamente e anualmente de modo a recuperar um novo coberto vegetal, mais organizado e ordenado para conseguir a floresta que a autarquia defende para o futuro.

O autarca destacou que “as equipas de sapadores da ADRL (Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões) afetas ao concelho de Vouzela têm executado o serviço público obrigatório, com ações de limpezas e combate às infestantes” na mata da Senhora do Castelo, um trabalho articulado numa parceria do município com o ICNF.

No entender do engenheiro florestal, de modo a diminuir o risco de incêndio, sobretudo junto às aldeias, “tinha de haver planos de ordenamento e de paisagem, começando logo pelo cadastro”, imediatamente após os incêndios de 2017.

“Tinha de ter sido de imediato. As pessoas estavam mais sensibilizadas. Isso não foi feito e agora é um problema grave, porque não é passando multas ou impondo que se consegue resolver o problema. Tem de haver políticas estruturais e reformistas”, frisou.

Na opinião de Rui Ladeira, “como estava tudo em cinzas, era fácil fazer o cadastro”, com a ajuda das pessoas mais velhas, que conhecem bem os terrenos, e dos presidentes de junta.

“Há boas intenções e fez-se um caminho legislativo, jurídico? Fez. Mas nós temos de avaliar é o que existe hoje, cinco anos depois”, considerou, exemplificando que, no que respeita ao eucalipto, “onde deveriam estar, de forma ordenada, 1.111 ou 1.666 pés (dependendo do compasso), estão hoje 20 a 30 mil pés, desordenados”.

Ou seja, existe “uma massa vegetal que se está tornar inflamável e, quando isto voltar a arder, vai o descalabro total”, alertou.

Notícias do Centro | Lusa

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