Coimbra

Café histórico Oásis completa 70 anos de atividade na Alta de Coimbra

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O Oásis é um dos mais antigos cafés de Coimbra e assinala 70 anos de atividade mantendo as características de ponto de encontro e convívio entre estudantes e moradores da Alta da cidade.

O alvará do estabelecimento, classificado na época como “café e leitaria”, foi emitido pela Câmara Municipal de Coimbra, em 17 de outubro de 1952, em plena ditadura de Salazar, quando a autarquia era presidida pelo brigadeiro José Maria Corrêa Cardoso.

O atual gerente do Oásis, Arsénio Seco Silva, começou a trabalhar aos 13 anos naquele rés-do-chão do largo da Sé Velha, em 1966, como empregado de Ilda Soares e Mário Ferreira.

“O Arsénio, que está ali há 56 anos – uma vida! – era tratado como se fosse filho do casal”, contou à agência Lusa o urbanista Lusitano dos Santos, que aos 83 anos vai o café como nos tempos de estudante.

A casa foi frequentada por sucessivas gerações de residentes do centro histórico e por alunos da Universidade de Coimbra (UC), com destaque para os membros da República dos Kágados, a mais antiga da cidade, fundada em 1933.

Lusitano dos Santos entrou em 1960 nos Kágados e logo se fez cliente do café, um discreto miradouro, à esquina da rua dos Coutinhos, de onde é possível apreciar quem sobe e desce as escadas do Quebra-Costas, entre a Alta e a Baixa.

“Quando o Oásis fechava, a malta ia para as ‘catacumbas’ jogar às cartas. Não era a dinheiro, era sempre a vinho”, recordou o catedrático jubilado da UC, que optou mais tarde por se fixar com a família nas proximidades.

Na sua opinião, “o Oásis é hoje o segundo café mais antigo de Coimbra”, depois do emblemático Santa Cruz.

Ali, o menino Arsénio, oriundo de uma aldeia de Penacova, passou, talvez com espanto, a presenciar acesas discussões, reencontros de saudade e reuniões de cariz político que, antes do 25 de Abril de 1974, eram às vezes encenadas como jogos de mesa e comezainas.

A ligação dos ‘repúblicos’ ao local era tão forte que o ‘kágado’ José Luís Câmara Alves, natural da Madeira, falecido em 2014, decidiu também viver para sempre no edifício onde funciona o espaço querido da sua juventude.

“Durante a Crise Académica de 1962, o Mário do Oásis costumava levar-nos comida ao pátio dos Palácio dos Grilos, onde tínhamos as assembleias”, afirmou Lusitano dos Santos.

Dessa “relação de todos os dias” com a vizinhança, recorda também a solidariedade de Mário Ferreira com os estudantes, na Crise Académica de 1969, quando o presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC), Alberto Martins, foi preso.

Mário juntou-se aos jovens que protestavam contra a prisão do futuro deputado do PS e ministro da Justiça, junto à sede da PIDE, na rua Antero de Quental, e foi espancado pela polícia de choque, o que exigiu tratamento hospitalar.

“Eu estava cá há três anos. Apareceu a GNR com cães e começou a malhar no pessoal. O Mário, como era mais velho, ficou para trás”, confirmou à Lusa Arsénio Silva, atualmente com 69 anos.

Na década de 1960, havia em redor da Sé Velha “um triângulo virtuoso”, constituído pela República dos Kágados, Oásis e Ateneu de Coimbra, costumava enfatizar o freguês José Luís Câmara Alves, que foi professor no Departamento de Matemática da UC.

Também os sócios do Grémio Operário marcavam presença no café histórico, que após o derrube do fascismo teve as paredes cobertas com milhares de autocolantes, com predomínio de mensagens dos partidos da esquerda.

O advogado Luís Carlos Rodrigues foi outro dos universitários que decidiu ficar na Alta, após acabar a licenciatura na Faculdade de Direito, frequentando o Oásis até à sua morte prematura.

Antigo presidente do Ateneu, Luís Carlos morreu em 2003, mas a viúva, Maria Arminda Silva, e demais família continuam a tomar a bica no Oásis, defronte do qual vivem há longos anos.

A filha do casal, Maria Luísa Silva, de 48 anos, coordenadora da União dos Sindicatos de Coimbra, mantém a tradição.

“O Oásis é quase uma casa familiar. Era um espaço de convívio da população e de muita discussão política e até acolheu reuniões proibidas antes do 25 de Abril”, declarou.

Os moradores “tinham o seu local de tradição”, enquanto os visitantes “iam mais a outro café” próximo, explicou Maria Luísa Silva.

As festas de aniversário do Ateneu, no 1º de Dezembro, e dos Kágados, que desta vez celebram dois dias depois, proporcionam todos os anos emotivos reencontros no Oásis.

Notícias do Centro | Lusa

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