A transformação digital da indústria cerâmica e da cristalaria portuguesa esteve em destaque no workshop “Futuro Digital da Indústria da Cerâmica e Cristalaria — Contributos da Agenda ECP”, realizado no passado dia 3 de junho, nas instalações da Vista Alegre, em Ílhavo.
O encontro reuniu empresas, especialistas e entidades ligadas à inovação para debater os desafios da digitalização do setor e apresentar as plataformas tecnológicas desenvolvidas no âmbito da Agenda ECP (Ecocerâmica e Cristalaria de Portugal), programa cofinanciado pelo PRR e pelo FEDER.
No centro das atenções esteve o Passaporte Digital de Produto (PDP), uma exigência regulamentar da União Europeia que obrigará as empresas a disponibilizar informação detalhada sobre os seus produtos, incluindo composição, rastreabilidade, impacto ambiental e ciclo de vida. A medida será obrigatória para todas as empresas que pretendam comercializar produtos no mercado europeu.
Pedro Mêda, do Instituto de Construção Sustentável, alertou para a necessidade de preparação atempada por parte das empresas. “O tempo vai ser curto. As empresas têm 18 meses após o ato delegado para implementar o Passaporte Digital de Produto”, afirmou, referindo que a publicação do diploma europeu é esperada até ao final de 2026.
Na abertura do evento, Cátia Carreira, da Vista Alegre Atlantis, destacou que a digitalização “deixa de ser opcional e passa a ser estruturante para a competitividade”. A responsável adiantou ainda que, atualmente, “90% dos produtos que nascem, nascem do digital”, permitindo acelerar processos de desenvolvimento e reduzir custos.
Durante o workshop foram apresentadas várias ferramentas desenvolvidas pela Agenda ECP para apoiar as empresas nesta transição. Entre elas estão plataformas para gestão do ciclo de vida do produto, monitorização da produção em tempo real, criação de bibliotecas BIM para a construção e sistemas destinados à gestão dos futuros Passaportes Digitais de Produto.
A utilização da inteligência artificial foi outro dos temas abordados. Sílvia Vara, da Visabeira I&D, deixou um aviso às empresas que pretendem avançar para estas soluções sem preparação prévia. “Quem avançar sem ter dados de qualidade terá mais de 70% de hipótese de falhar”, alertou.
A economia circular também marcou presença nos debates, com a apresentação de uma plataforma digital destinada à valorização de resíduos e subprodutos industriais do setor cerâmico, facilitando a sua reutilização por outras empresas.
No encerramento dos trabalhos, o presidente da APICER, Jorge Vieira, considerou que o setor está preparado para enfrentar este novo desafio. “A transformação digital já não é uma visão. Está a acontecer agora”, afirmou, destacando a capacidade de adaptação demonstrada pelas empresas portuguesas.
O evento serviu assim para reforçar a mensagem de que a digitalização deixou de ser apenas uma oportunidade de modernização e passou a ser uma condição essencial para garantir a competitividade e o acesso ao mercado europeu nos próximos anos.













Comentários