A companhia francesa Dyptik vai apresentar de quinta-feira a sábado no festival Imaginarius, em Santa Maria da Feira, um espetáculo que combina linguagens urbanas contemporâneas com danças tradicionais da Palestina e Líbano, para defender que resiliência implica comunhão.
A performance que o coletivo fundado em 2012 leva ao referido evento do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto estreia assim em Portugal um projeto imersivo que já esteve em cena mais de 200 vezes, passou por 10 países e reúne cinco bailarinos franceses, dois italianos e um libanês.
Em entrevista à Lusa, o coreógrafo e codiretor artístico da Dyptik explica que o espetáculo “Mirage (Un jour de fête) – Miragem (Um dia de festa)” foi concebido quando a situação na Palestina, no Líbano, na Síria e na Jordânia “era muito menos complicada do que é atualmente” e admite que, na altura, o objetivo primordial da performance não era aumentar a consciência do público quanto aos conflitos nessa região do globo.
“O nosso desejo era mais chamar a atenção para uma cultura que nos inspirou profundamente e que achávamos bela e cheia de significado”, conta Mehdi Meghari. “Queríamos falar sobre resiliência e mostrar como os seres humanos precisam uns dos outros para sobreviverem juntos”, refere.
Face ao agravar do contexto da Palestina e ao recente conflito no Irão e no Líbano, o coreógrafo reconhece que a leitura do espetáculo por parte dos espectadores passou entretanto passou a ser diferente, mas garante que a estrutura inicial de “Miragem” não sofreu alterações e que a atualidade só tornou mais válida a mensagem original. “O nosso objetivo não era realçar a guerra ou conflitos políticos, mas antes encorajar as pessoas a aproximarem-se, a aprenderem com as outras e a abraçar as suas diferenças”, justifica.
Se no dia da atuação os noticiários falarem de novos ataques e vítimas nos países cujas danças são retratadas no espetáculo, os bailarinos encaram “Miragem” como uma pausa que lhes permite “desligar de uma realidade difícil” e deixam que a mensagem se torne ainda mais vincada. “É algo que aprendemos durante as nossas estadas na Palestina: quando as pessoas dançam juntas, isso cria um momento de comunhão em que, por um instante, esquecemos a violência e a agressão vindas do mundo exterior”, defende Medhi Meghari.
As características das danças tradicionais do Médio Oriente que mais ajudam a despertar esse sentido de comunhão são a sua dinâmica circular, um forte sentido de postura e passos que revelam firmeza no chão. “Também adoramos a sua dimensão festival”, diz o codiretor da Dyptik. “Nestas danças coletivas as pessoas precisam umas das outras, dão as mãos e avançam juntas”, explica.
Na maioria dos locais onde o espetáculo tem sido apresentado, o que disso resulta é “uma forte necessidade humana de se juntar em grupo, de se reconectar com os outros, de se afastar de casa e dos ecrãs, e de celebrar coletivamente”.
Para Mehdi Meghari, todos precisam de abrandar: “A nossa sensação é que vivemos num mundo onde o dinheiro cega e divide as pessoas. No entanto, se simplesmente tirássemos mais tempo para nos conhecermos uns aos outros e para partilhar momentos de alegria juntos, teríamos menos medo dos outros e menos medo por nós – e talvez vivêssemos em maior paz”.
Nessa ordem de ideias, danças como o ‘dabkeh’ – que é Património Imaterial da Humanidade – já são pedagogia, mas a tolerância beneficia de outras formas de aprendizagem, como a que o coreógrafo viu praticada numa associação da Palestina que, constituída por mães tanto desse país como de Israel, ensina aos filhos de ambas as línguas dos dois territórios.
“Quando esses miúdos se tornam amigos, percebem que o outro não é um monstro e apenas mais uma criança com quem brincar”, conta o coreógrafo. “E é nisso que aquelas mães acreditam: que a educação é a melhor forma de resolver o conflito”.













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