O Jornal das Cortes, que era publicado mensalmente desde 1987 na freguesia das Cortes, em Leiria, chegou ao fim este mês, anunciou a direção.
O último número, publicado em 14 de fevereiro, tem na primeira página, como manchete, as tempestades que deixaram um rasto de destruição na freguesia, mas também o aviso: “Última edição: foram 458 edições e quase 39 anos a escrever sobre a nossa terra”.
“O problema é o mesmo de todos os jornais super-locais que estão a fechar”, explicou à agência Lusa a diretora, Patrícia Gonçalves.
“São demasiados pequenos para ter alguns apoios, mas não o suficiente para poderem deixar de cumprir as regras, obrigações e exigências de todos os outros jornais ditos ‘maiores’”.
Há muito que o Jornal das Cortes passava por dificuldades. Quando iniciou a colaboração com o mensário, há 13 anos, Patrícia Gonçalves lembra-se de a publicação quase ter fechado portas.
Há nove anos passou de colaboradora a diretora, garantindo a manutenção da publicação. Mas o tempo acabou por ditar, agora, o fim do Jornal das Cortes, agudizando um conjunto de situações difíceis de gerir.
Atualmente eram impressos 550 exemplares do jornal totalmente feito por voluntários. “Ninguém é remunerado, nem a diretora”, frisou.
“O Jornal das Cortes só sobreviveu 38 anos porque foi feito por voluntários. São pessoas que, até aos dias de hoje, ajudam a fazer cobranças, fazem distribuição de porta em porta e que contribuem com artigos de opinião e pequenas rubricas”, explicou.
O cansaço que contribuiu para a saída de alguns colaboradores, a falta de renovação de assinantes – “as novas gerações não valorizam este tipo de publicações e têm acesso à informação de forma gratuita” – e o peso financeiro e burocrático que implicava manter o jornal ditaram a decisão.
“Tudo pesa um bocadinho nisto”, afirmou, lamentando que o Jornal das Cortes e outros semelhantes sejam “muito pequenos para ter apoios”, mas terem, na mesma, “muitos custos”.
A título de exemplo, elencou: “Ter de pagar a ERC [Entidade Reguladora para a Comunicação Social], ter de ter alguém com a carteira profissional, pagar os IVA e os outros impostos todos, correios, impressão, ter contabilidade organizada. São uma série de exigências para um jornal demasiado local, feito por voluntários, conseguir sobreviver”.
Patrícia Gonçalves procurou alternativas, “mas um projeto hiperlocal, e que não tem lucro, não é muito atrativo”.
Nas Cortes, uma freguesia a oito quilómetros do centro de Leiria, a notícia do fim do jornal da terra provocou reações.
“Fundadores e colaboradores que estão connosco desde início e instituições da terra mostram tristeza, mas compreendem a decisão. Recebemos chamadas de emigrantes e de pessoas que foram para Lisboa e que ligam a chorar, tristes, porque vão deixar de ter as notícias. Era todos os meses o sabor a casa. É uma pena, mas no próximo mês já não há jornal”, lamenta.
Ao longo de 38 anos, “o jornal ajudou a população das Cortes em muitas batalhas, deu destaque a temas importantes, documentou o que era a atividade da freguesia e da sociedade, fez vários livros. O que está feito, fica registado”, sublinhou.
Agora, a intenção é manter, pelo menos, alguma atividade na página do Jornal das Cortes no Facebook. “Não sabemos o que o futuro nos reserva”, afirmou Patrícia Gonçalves.
“Gostávamos que aparecesse alguém interessado, a fazer de outra forma. Mas já tentámos bater a várias portas e ninguém se mostrou interessado em tentar, pelo menos”.
O Jornal das Cortes foi lançado a 05 de dezembro de 1987, fundado por Carlos Fernandes e José Bento. Desde então, até este fevereiro, saiu todos os meses, sem exceção.












Comentários