Em Ribeira de Frades, no concelho de Coimbra, vêm à memória por estes dias as cheias de 2001 e 2019. A noite foi passada em claro, de volta de sacos de areia e de críticas à falta de manutenção da bacia do Mondego.
Álvaro Caldeira, de guarda-chuva na mão, caminha junto a uma zona alagada perto de Ribeira de Frades e olha com consternação para o rio que conhece bem – o seu pai trabalhou na Hidráulica do Mondego e as cheias já lhe deixaram marcas no passado.
“É tanta a incompetência que temos no nosso país”, desabafa o homem de 74 anos, que teve de fechar a sua agência funerária nas cheias de 2001, quando perdeu cinco carros e um armazém de urnas.
Na mão livre, a que não segura o guarda-chuva, Álvaro levanta um dossiê onde tem cartas que enviou à Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Câmara Municipal e juntas de freguesia a denunciar a falta de limpeza na Vala do Sul do Mondego e de outros cursos de água que descem a encosta de Antanhol até àquela zona.
Os avisos foram feitos em 2018 e veio logo uma cheia em 2019 para lhe adensar a frustração.
“Nada foi feito”, vincou o homem que nasceu, cresceu e vive em Ribeira de Frades, apontando também para um abaixo-assinado com cerca de 200 pessoas da zona.
Segundo Álvaro Caldeira, os cursos de água e valas associadas à bacia do Mondego estão sujas e entupidas.
“Agora, estamos aqui sujeitos a levar com mais uma cheia, outra vez”, diz o homem que ainda se lembra de acartar areia à cabeça com sete anos para evitar que as águas galgassem para Ribeira de Frades.
“O rio se começasse a babar – porque rebenta por cima e não por baixo – estávamos lá nós com areia. Éramos pagos à cesta de areia que a gente levasse”, contou.
Apesar de lhe terem batido à porta à noite, Álvaro ignorou e continua pela zona, “atormentado” e sem uma hora de sono dormida.
Entre Ribeira de Frades e Ameal, localidades próximas do rio, somam-se as casas com sacos de areia junto às portas e placas a bloquear entradas, numa zona onde se veem campos alagados e água próxima das vias.
Face à cota baixa, muitos optam por estacionar os carros de forma preventiva na ponte sobre a linha ferroviária, à espera de os salvar caso a água suba.
Joaquim Paixão, a morar próximo de Ribeira de Frades, está com colegas, abrigados da chuva, numa pequena oficina onde se arranjam alfaias agrícolas na estrada que segue até Taveiro.
O homem também viu a água entrar na sua casa em 2019 e repete as críticas sobre a falta de limpeza e manutenção dos canais e valas.
“A APA não liga nada. A Vala do Sul não é limpa e é uma vergonha”, critica.
Por agora, apenas os campos e algumas estradas agrícolas estão alagadas, mas por Coimbra teme-se que as margens do rio possam colapsar, com a forte chuva que se tem sentido ao longo das últimas três semanas.
Um morador de Ribeira de Frades, que preferiu não dar o nome, andou a preparar-se para o pior: pôs sacos de areia junto à casa e moveu os carros para a localidade de Casais, à espera de ficarem a salvo.
“Isto é preocupante. Estive deitado na cama, mas não consegui dormir nada. Ainda tomei um comprimido para dormir, mas não consegui, que andei na guerra, tenho stress da guerra e estas coisas fazem reavivar tudo”, contou o homem na casa dos 70 anos.










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