Aveiro

Estudo da UA alerta para lacunas na prevenção da iatrogenia em idosos em Portugal

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O envelhecimento da população é uma das principais tendências demográficas em Portugal, resultado da diminuição da natalidade e do aumento da esperança média de vida.
Este cenário traz novos desafios ao sistema de saúde, sobretudo no cuidado à população mais idosa, frequentemente sujeita a múltiplas intervenções médicas e a um elevado consumo de medicamentos. Um estudo da Universidade de Aveiro (UA) alerta que esta realidade pode aumentar o risco de iatrogenia — danos causados por cuidados de saúde ou pela medicação — e comprometer a autonomia dos idosos.
Maria Teresa Herdeiro, investigadora do Departamento de Ciências Médicas e do Instituto de Biomedicina da UA e coordenadora do Projeto STOP-IATRO na UA, sublinha que as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e outras orientações internacionais não estão ainda a ser totalmente implementadas de forma eficaz pelos profissionais de saúde. “O ideal seria que estas recomendações fossem integradas nas guidelines do Serviço Nacional de Saúde e nos protocolos institucionais, permitindo a sua aplicação na prática clínica”, sublinha, defendendo ainda a importância da formação contínua e do envolvimento de equipas multidisciplinares.
A investigação teve como objetivo avaliar o conhecimento dos profissionais de saúde sobre a iatrogenia e a sua prevenção, permitindo identificar necessidades e apoiar o desenvolvimento de estratégias inovadoras para melhorar os cuidados prestados às pessoas mais velhas.
Numa fase inicial participaram 64 profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros, farmacêuticos hospitalares e técnicos auxiliares de saúde, a maioria dos inquiridos tinha mais de 10 anos de experiência profissional.
Os resultados revelam lacunas ao nível do conhecimento das orientações internacionais. Cerca de 81 por cento dos profissionais desconhecem as recomendações da OMS para prevenir, retardar ou reverter o declínio das capacidades físicas e mentais dos idosos. Além disso, 84 por cento não conhecem recomendações publicadas para prevenir a perda de autonomia funcional durante o internamento hospitalar de pessoas idosas, e 82 por cento não utilizam escalas para avaliar o estado funcional dos doentes.
Quando questionados sobre o impacto da iatrogenia na perda de capacidade funcional dos idosos, uma parte significativa dos participantes considera que esta situação afeta uma percentagem relevante dos doentes. Cerca de 34 por cento acredita que entre 11 e 25 por cento dos idosos sofre este tipo de declínio não explicável apenas pela sua condição clínica, enquanto 24 por cento dos participantes aponta valores entre 26 e 50 por cento.
Relativamente à iatrogenia medicamentosa, 47 por cento dos profissionais considera que entre 11 e 30 por cento dos eventos iatrogénicos graves estão associados ao uso de alguns medicamentos, e 24 por cento acredita que estes representam entre 41 e 60 por cento dos eventos adversos. Uma parte significativa dos inquiridos reconhece ainda que muitos destes casos poderiam ser evitados: 41 por cento dos participantes considera que entre 41 e 60 por cento dos eventos relacionados com medicamentos são preveníveis, e 28 por cento estima que a mesma percentagem destes efeitos adversos pode implicar internamento hospitalar.
Apesar das lacunas identificadas, o estudo destaca um dado positivo: 92 por cento dos profissionais mostraram-se disponíveis para participar em ações-piloto de boas práticas na prevenção e gestão da iatrogenia medicamentosa.
Embora o estudo tenha sido realizado junto de profissionais de saúde da região de Aveiro, Maria Teresa Herdeiro considera que a realidade observada não deverá ser muito diferente no resto do país. “Portugal apresenta o segundo índice de envelhecimento mais elevado da União Europeia, e muitos idosos têm condições de saúde complexas, estão sujeitos à polimedicação e a múltiplos tratamentos, o que aumenta o risco de doença iatrogénica”, aponta a responsável. “Estudos anteriores indicam que cerca de metade dos idosos pode perder capacidades funcionais durante o internamento, com impacto direto na sua qualidade de vida após a alta e nos custos em saúde, colocando maior pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde”, sublinha Maria Teresa Herdeiro.
“Muitos destes eventos iatrogénicos são conhecidos, estudados e podem ser evitados. Os profissionais de saúde de uma forma global estão despertos para a iatrogenia, nomeadamente medicamentosa, contudo, apontam a necessidade de instrumentos de avaliação do risco e do estado funcional dos idosos”, alerta a coordenadora do estudo.
Este trabalho insere-se no projeto STOP-IATRO, financiado pelo Interreg Sudoe e desenvolvido em parceria com instituições de Portugal, Espanha e França, com o objetivo de prevenir a iatrogenia na população idosa. Com base nos resultados obtidos através da aplicação destes questionários, foram já realizadas ações de formação utilizando a metodologia de workshops dirigidas a profissionais de saúde da Unidade Local de Saúde da Região de Aveiro, envolvendo cerca de 80 participantes de diferentes áreas clínicas. Estão ainda previstas, ao longo deste ano, ações de sensibilização dirigidas à população em geral, com foco na promoção da literacia em saúde e no envelhecimento saudável.

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