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Canção de Coimbra (ainda) “não mereceu um estudo sério e sistemático por parte da academia”

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O Centro de Estudos Interdisciplinares (CEIS20) da Universidade de Coimbra anunciou hoje o lançamento de uma plataforma científica para estudar a Canção de Coimbra, que até hoje “não mereceu um estudo sério e sistemático por parte da academia”.

“Trata-se de uma plataforma científica que traça as linhas gerais da Canção de Coimbra, mas com uma proposta que se quer dinâmica e que se vai modificando ao longo do tempo. Pretendemos que seja um debate científico, não só entre pares, mas com a comunidade, um debate participado com os agentes que tornam possível esta prática, que a enriquecem e a mantêm viva”, evidenciou o coordenador científico do CEIS20, José Oliveira Martins.

Durante o encontro “A Canção de Coimbra em Debate”, que decorreu hoje de manhã na Casa da Escrita, no âmbito das comemorações do 10.º aniversário da inscrição da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia na lista de Património Mundial da UNESCO, o CEIS20 apresentou uma plataforma científica para estudar a Canção de Coimbra e práticas culturais associadas.

“Propomos que tenha índole científico, mas também integrado, porque se quer convocar os vários tipos de conhecimento: prático, teórico, experimental, com questões de oralidade, etc. Também se pretende integrar várias disciplinas científicas, desde a antropologia, história, teoria e análise musical, investigação artística, etc.”, referiu José Oliveira Martins.

Na mesma ocasião, Leonor Rosa, que coordena a plataforma científica, juntamente com José Oliveira Martins e Rui Cidra, evidenciou que esta será a primeira vez que a Canção de Coimbra será alvo de reflexão académica.

“Ao contrário de outras práticas e tradições musicais, a Canção de Coimbra não mereceu ainda um estudo sério e sistemático por parte da academia, apesar de ser amplamente documentada e pesquisada. Do ponto de vista de um estudo mais académico, a Canção de Coimbra tem sido um pouco negligenciada”, acrescentou.

Já o vice-reitor da Universidade de Coimbra para Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Delfim Leão, apontou que ao longo dos anos foram levados a cabo diversos estudos que aludiram à Canção de Coimbra.

No entanto, faltava o “suporte sistemático e uma equipa de investigação que pegasse neste tópico como objeto central da sua investigação”.

“Não cabe à Universidade, nem ao centro de investigação, seja ele qual for, determinar de que forma a Canção de Coimbra deve ou não ser interpretada ou fazer o diagnóstico do que é o genuíno. Mas cabe a um centro de investigação fazer um estudo sério, sistemático e programático desta manifestação artística”, considerou.

No seu entender, esta plataforma científica trará “muitas novidades” e servirá para agregar informação que atualmente circula de forma dispersa.

“Serão ouvidos e tidos em conta testemunhos de múltiplas áreas de atuação e isso só pode traduzir-se numa grande valorização do Fado, da Canção de Coimbra em sentido lato. Creio que haverá maior projeção desta forma de expressão artística no país e no mundo”, concluiu.

Segundo a Universidade de Coimbra, a plataforma científica para o estudo da Canção de Coimbra e práticas culturais associadas é um projeto “a longo prazo”, que pretende constituir-se como “um espaço inclusivo e multidisciplinar que possa endereçar a Canção de Coimbra na sua diversidade e complexidade de géneros e práticas musicais, contextos de sociabilidade, geografias e trajetórias históricas”.

A fase inicial deste projeto será dedicada “essencialmente ao mapeamento de fontes e de auscultação da comunidade que preserva, recria e reinventa estas tradições”.

Tem como eixos de investigação o relacionamento da Canção de Coimbra com a cidade, a experiência social dos jovens, o questionamento do Estado Novo e as lutas pelas liberdades fundamentais, sociabilidades e redes associativas, o contributo da canção de Coimbra para o panorama da música popular no país, para além da constituição da Canção de Coimbra como um género de música popular gravada no âmbito da indústria discográfica.

O estudo incidirá ainda no papel da gravação no molde da tradição, nas redes e a circulação de músicos e de música gerada pela indústria discográfica e pela indústria dos espetáculos; e nas intersecções estilísticas e formas de diálogo entre a Canção de Coimbra e outras tradições musicais e poéticas no país e no espaço lusófono.

A equipa da plataforma científica da Canção de Coimbra é constituída por três coordenadores – José Oliveira Martins, Leonor Losa e Rui Cidra, para além de investigadores do CEIS20, estudantes, consultores, investigadores e entidades parceiras, bem como membros da comunidade.

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