E se um resíduo industrial pudesse ajudar a tornar a água mais limpa? Foi precisamente isso que uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro (UA) conseguiu demonstrar ao desenvolver um novo material capaz de remover poluentes da água, dando uma segunda vida a resíduos produzidos pela indústria.
O trabalho recorre à chamada “lama vermelha”, um resíduo industrial gerado durante o processo Bayer de refinação da bauxite, principal matéria-prima utilizada na produção de alumina e, subsequentemente, de alumínio. Em vez de ser encarado apenas como um resíduo, este material foi aproveitado para criar estruturas tridimensionais produzidas por impressão 3D, capazes de atuar como filtros avançados para o tratamento de águas contaminadas.
Para aumentar a sua eficácia, os investigadores Nuno Gonçalves, Ricardo Silva, Tito Trindade e Rui Novais, do Departamento de Química, do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro e do Departamento de Materiais e Cerâmica, incorporaram nanotubos de carbono e um revestimento de dióxido de titânio, materiais conhecidos pelas suas propriedades fotocatalíticas. Na prática, isto significa que, quando exposto à luz ultravioleta, o novo material desencadeia reações químicas capazes de degradar substâncias poluentes presentes na água.
Os testes realizados revelaram resultados muito promissores. O material conseguiu remover mais de 90 por cento da ciprofloxacina, um antibiótico frequentemente encontrado em cursos de água e considerado um contaminante emergente, em apenas uma hora de funcionamento. Em determinadas condições, a eliminação do poluente foi praticamente total em cerca de 30 minutos.
Além da elevada eficiência, o sistema apresenta outra vantagem importante: pode ser reutilizado várias vezes sem perda significativa de desempenho. Os ensaios demonstraram que o material manteve a sua capacidade de descontaminação ao longo de vários ciclos de utilização.
A investigação mostra ainda que a solução é eficaz não apenas para um único poluente, mas também para misturas mais complexas de contaminantes, uma situação frequentemente encontrada em ambientes reais.
Ao combinar valorização de resíduos industriais, impressão 3D e tecnologias avançadas de tratamento de água, o estudo abre caminho para soluções mais sustentáveis e económicas no combate à poluição hídrica. A abordagem contribui simultaneamente para a economia circular, reduzindo resíduos e criando novos materiais com elevado valor acrescentado para a proteção ambiental.













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